"Jaguatirica Print"

Ano: 2019
Selo: Independente
Gênero: Pop, Brega, Reggaeton
Para quem gosta de: Duda Beat e Potyguara Bardo
Ouça: Tous Les Jours e Furtacor
Nota: 8.0

Crítica | Luísa e os Alquimistas: “Jaguatirica Print”

Luísa Nascim sempre soube como transformar as próprias desilusões, romances e conflitos sentimentais no principal componente criativo para o fortalecimento de cada novo registro de inéditas. Basta uma rápida passagem pelo material entregue em obras como Cobra Coral (2016) e Vekanandra (2017), dois primeiros álbuns de estúdio como Luísa e os Alquimistas, para perceber a forma como a cantora e compositora potiguar utiliza de experiências particulares como um elemento de imediato diálogo com o ouvinte. São fragmentos de vozes, sempre confessionais, estrutura que se completa pela rica base instrumental que passeia por entre ritmos abrasivos e referências extraídas de diferentes campos da música.

Terceiro e mais recente álbum de estúdio da cantora norte-rio-grandense, Jaguatirica Print (2019, Independente) talvez seja o trabalho em que Nascim melhor desenvolve todos esses elementos dentro de estúdio. Do momento em que tem início, na colorida Descoladinha, colaboração com Jéssica Caitano, até alcançar o brega futurístico de Like Attack, uma crítica à superficialidade do Instagram e outras redes sociais, cada fragmento do disco reflete a capacidade da artista em transitar por entre gêneros de forma sempre provocativa, proposta em que nenhum momento perverte a identidade criativa da compositora.

Exemplo disso está no rico catálogo de ideias que embala a quente Tous Les Jours. Com versos cantados em português, francês, espanhol e inglês, a canção, completa pela presença do rapper togolês Izy Mistura, Teago Oliveira (Maglore) e Gabriel Souto mostra a completa versatilidade da artista potiguar dentro de estúdio. São pouco menos de três minutos em que o ouvinte é convidado a se perder em um misto de trap, pop tropical e doce nostalgia, estrutura que volta a se repetir na também detalhista Olhos de Tocha, canção que vai do brega funk ao uso de elementos periféricos em uma combinação que faz lembrar de nomes recentes como ÀTTØØXXÁ e BaianaSystem.

A mesma mistura de ritmos acaba se refletindo na própria faixa-título do trabalho. Concebida em meio a reverberações latinas que vão do pop ao brega funk, do rap à música eletrônica em uma criativa sobreposição de ritmos, a canção ganha ainda mais destaque na breve interferência de um time seleto de vozes femininas. São nomes como Jessica Caitano, Jamila e o trio formado por Camila Rocha, Kalyne Lima e Preta Langy, do Sinta A Liga Crew. Um ziguezaguear de ideias e experiências sonoras que muda de direção a todo instantes, direcionamento também evidente em outras preciosidades como Calor no Rio e a envolvente Garota Ligeira, bem-sucedida colaboração entre Nascim e a cantora e compositora paraense Luê.

Interessante notar que mesmo pronto para as pistas, sobrevive na leveza de músicas como Furtacor, Cadernin e outras composições menos urgentes a passagem para o lado mais sensível e, consequentemente, maduro da obra. “Não sei mais / Quando você se foi / Até mais / Eu lhe falei / Estou em paz / Levo a vida sem te ver / Mas isso não quer dizer / Que não te amo mais“, canta em um exercício de profunda vulnerabilidade e entrega sentimental. São melodias e vozes empoeiradas, sempre tocantes, como se pensadas para acolher o ouvinte. Canções como Sol em Câncer, colaboração com Catarina Dee Jah, em que Nascim reflete sobre o movimento de êxodo para o sudeste e os conflitos vivenciados por mulheres nordestinas em algumas das principais cidades brasileiras.

De essência versátil, como tudo aquilo que a cantora tem produzido desde o início da carreira, o trabalho completo pela presença dos músicos Zé Caxangá, Pedro Regada, Carlos Tupy, Tal Pessoa, Pedras e Gabriel Souto, os dois últimos, co-produtores do disco, convida o ouvinte a se perder em um universo de emanações tão nostálgicas quanto atuais, produto da capacidade da artista em transitar por entre gêneros, épocas e tendências de forma sempre particular. São três ou mais décadas de referências que surgem e desaparecem durante toda a execução da obra, tornando a experiência do ouvinte deliciosamente incerta, como um avanço claro em relação ao material entregue pela cantora durante a produção do antecessor Vekanandra (2017).



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