"Fountain"

Ano: 2020
Selo: Bedroom Community
Gênero: Experimental, Música Ambiente
Para quem gosta de: Holly Herndon e Julianna Barwick
Ouça: Witness, Gossip e New Moon
Nota: 8.0

Crítica | Lyra Pramuk: “Fountain”

Não existe instrumento mais versátil do que a voz humana. E Lyra Pramuk parece entender bem isso. Não por acaso, para o primeiro álbum em carreira solo, a cantora, compositora e produtora norte-americana utiliza do próprio canto como um estímulo para cada uma das sete faixas que recheiam o introdutório Fountain (2020, Bedroom Community). São sobreposições etéreas, texturas e ambientações sempre detalhistas, precisas, estrutura que se reflete na forma como a artista residente em Berlim assume diferentes identidades criativas a cada nova criação, como um exercício claro do desejo da musicista em brincar com as possibilidades.

Colaboradora frequente de outros entusiastas do uso instrumental da voz, como Colin Self e Holly Herndon, essa última, responsável pelo ainda recente Proto (2019), obra em que utiliza de uma inteligência artificial como forma de emular as vozes humanas, Pramuk faz do bem-sucedido debute um ponto de equilíbrio entre o pop e a música erudita. São ambientações melancólicas que se entrelaçam de forma transcendental, estrutura que vai da produção eletrônica ao doce experimentalismo, cuidado que se reflete até a faixa de encerramento do disco, a extensa New Moon.

Claramente influenciada pela obra de ANOHNI, Björk e outros artistas que encontraram no uso da voz um importante componente criativo, Pramuk utiliza do próprio processo de transição de gênero como estímulo para um material de essência mutável. São vozes trabalhadas em diferentes tonalidades, alternando entre a brutalidade e a leveza. Exemplo disso está na introdutória Witness, canção em que a artista passeia em meio a reverberações operísticas, sempre dramáticas, e instantes de parcial recolhimento, dualidade que joga com a experiência do público mesmo nos momentos mais contidos do álbum, como na curtinha Mirror.

São justamente essas pequenas variações e harmonias sobrepostas que tornam a experiência de ouvir o álbum tão satisfatória. Do momento em que tem início, na já citada Witness, passando por músicas como Tendril e a e Cradle, com mais de nove minutos de duração, perceba como Pramuk faz de cada fragmento um produto direto da própria voz. São ambientações que simulam arranjos de cordas, sintetizadores ou mesmo batidas eletrônicas, como na crescente Gossip, música que parece dialogar com o pop torto de Oil of Every Pearl’s Un-Insides (2018), da britânica SOPHIE.

Entretanto, para além da simples fragmentação das ideias, como se cada composição servisse de passagem para um novo universo criativo, interessante perceber em Fountain uma forte aproximação entre as faixas. Ainda que cada música aponte para uma direção diferente, Pramuk parte sempre de uma mesma identidade criativa. São vocalizações orquestrais e texturas atmosféricas, estrutura que serve de alicerce para o som labiríntico que invade o restante da obra. Um lento desvendar de ideias e experiências sensoriais, mas que em nenhum momento deixa de dialogar com o público.

Dessa forma, Pramuk entrega ao público um registro muito mais voltado ao aspecto contemplativo de nomes como Julianna Barwick e Grouper do que do experimentalismo de Holly Herndon. Salve músicas como Gossip, com suas ambientações inexatas, perceba como melodias e vozes se entrelaçam de forma sempre convidativa, doce, indicativo do ambiente mágico que se revela ao público até o último instante da obra. Canções que vão da melancolia dos temas (Witness) à transformação sentimental (New Moon), proposta que convence o ouvinte mesmo na completa ausência de palavras.