"Macumbas e Catimbós"

Ano: 2019
Selo: YB Music
Gênero: MPB, Regional
Para quem gosta de: Isaar, Juçara Marçal e Serena Assumpção
Ouça: Exu Chega e Ponto para Preto Velho
Nota: 8.8

Crítica | “Macumbas e Catimbós”, Alessandra Leão

“Quando Exu chega
Ele abre
Eu vou lá
Abre estradas
E olho
Para além de mim”

O canto cíclico lançado por Alessandra Leão logo nos primeiros minutos de Macumbas e Catimbós (2019, YB Music), quarto álbum de estúdio da cantora e compositora pernambucana, funciona como um delicado rito de passagem para o ambiente contemplativo, particular e místico que orienta a experiência do ouvinte até o último instante da obra. Um exercício de profunda entrega emocional, como um avanço claro em relação ao material apresentado pela artista nos últimos anos, caso de Brinquedo de Tambor (2006), Folia de Santo (2008), Dois Cordões (2009), a trilha sonora da peça Guerreiras (2010) e a trilogia formada por Pedra de Sal (2014), Aço (2015) e Língua (2016).

Despido de possíveis excessos e centrado unicamente no uso da voz como instrumento, Macumbas e Catimbós se espalha em meio a batidas e entalhes percussivos divididos entre a cantora e a dupla formada por Abuhl Jr. e Maurício Badé. O resultado desse forte comprometimento estético resulta na formação de uma obra de essência hipnótica, minuciosa, como se pensada para induzir o transe. Instantes em que a artista pernambucana faz do próprio canto uma oferenda, dialogando com orixás e entidades que lhe foram sopradas ao pé do ouvido.

Solto as águas / Derramo nelas / Danço em festa / Oraieiê / Do teu ventre mãe / Corre um rio em mim“, canta em Corre um Rio em Mim, homenagem à Oxum, a mãe das águas doces. São versos curtos, simples, porém, marcados pela força dos sentimentos, conceito que ganha forma e cresce durante toda a execução da obra, como na grandiosa Tua mão, minha cabeça. “Lá vem Xangô / Descendo aqui / Tua mão / Minha cabeça / Tua mão / minha cabeça / Enfim“, segue a letra da canção que ainda se abre para a interferência de Lívia Mattos, Lenna Bahule, Karina Buhr, Isaar, Manu Maltez e Caê Rolfsen, esse último, co-produtor do disco junto de Leão.

Uma vez imersa nesse universo, Leão e os parceiros de estúdio se dividem entre músicas autorais, como Abre a mata, Oxóssi, Ogum Está de Ronda e Corre um rio em mim, e pequenos resgates criativos que passam por antigas canções folclóricas, folguedos de Cavalo-Marinho e, principalmente, músicas tradicionais de Jurema e Catimbó, reforçando a essência religiosa que embala a obra. Exemplo disso ecoa com naturalidade em Vamos, Mestre, composição que sintetiza a força cerimonial presente na segunda metade do trabalho. “Vamos / Meu Mestre vamos / Vamos / Pra Jurema trabalhar / Mas eu / Só trabalho é cantando / Bebendo / Fumando / Tocando / O meu maracá“, canta.

Interessante notar que mesmo orientado pela força das batidas, Macumbas e Catimbós se abre para a composição de faixas puramente atmosféricas, como pequenos pontos de respiro dentro da obra. É o caso de Ponto Para Malunguinho. São texturas de vozes e sobreposições minimalistas que se espalham aos poucos, sem pressa, servindo de base para a fina tapeçaria percussiva que ganha forma ao longo da canção. Nada que se compare ao trabalho em Ponto para Preto Velho, música de essência transcendental que se abre para a voz grave de Mateus Aleluia, complemento ao canto etéreo de Leão.

Completo pela colorida identidade visual que conta com assinatura de Juliana Prado Godoy, além, claro, de vozes pontuais enviadas por sacerdotes, amigos próximos e familiares da cantora, como na derradeira Firmei meu ponto / Ponto pro tambor, Macumbas e Catimbós assume um evidente caráter de obra documental, como um precioso registro da nossa cultura. São fragmentos de vozes, batidas e melodias atmosféricas que se espalham em meio a cantos ancestrais, proposta que muito se assemelha ao trabalho de Serena Assumpção (1977 – 2016), em Ascenção (2016), porém, de forma ainda mais ritualística, como um convite à celebração mesmo aos não iniciados.