"Mundo Novo"

Ano: 2020
Selo: Universal Music
Gênero: Pop, MPB, Soul
Para quem gosta de: Castello Branco e Rubel
Ouça: Nova TV e Sem Medo
Nota: 7.5

Crítica | Mahmundi: “Mundo Novo”

Marcela Vale não poderia ser mais explícita. Ponto de partida para uma nova fase na carreira da cantora e compositora carioca como Mahmundi, Mundo Novo (2020, Universal Music), terceiro e mais recente álbum de estúdio, estabelece na busca por diferentes sonoridades um delicado ponto de ruptura criativa. Composições que pervertem o pop nostálgico que embala os primeiros registros autorais, como o homônimo disco entregue há quatro anos, porém, preservam lirismo convidativo e leveza que tem sido aprimorada desde o antecessor Pra Dias Ruins (2018), obra que revelou uma artista cada vez mais acessível, conceito reforçado nas canções do presente trabalho.

De essência radiofônica, como se feito para ser sintonizado e absorvido em um passeio de carro pela cidade, Mundo Novo estabelece nas relações humanas a base para grande parte das canções. “Ser humano é ser plural. Conviver não é só uma opção que a gente faz. O convívio é a nossa condição, é questão de sobrevivência, identidade“, reflete o mineiro Paulo Nazareth, no texto de abertura do disco. Também colaborador em Convívio, terceira faixa do trabalho, o músico parece apontar a direção seguida pela artista até a canção de fechamento do álbum, Vai.

São composições marcadas por encontros e desencontros, momentos de breve contemplação e versos sempre regidos pela força dos sentimentos. Criações de essência universal, como se Vale extrapolasse o próprio domínio criativo para dialogar com todo e qualquer ouvinte. Não por acaso, esse é o trabalho em que a artista mais contou com a colaboração de diferentes instrumentistas e compositores. São nomes como o velho parceiro, o músico Castello Branco, com quem divide as ótimas Nova TV e Nós de Fronte, Frederico Heliodoro, na já citada canção de encerramento, além, claro, da bem-sucedida versão para Coração na escuridão, faixa originalmente composta por Jorge Mautner e Dadi.

Vem justamente dessa necessidade em trilhar novos caminhos a base para uma das principais faixas do disco, a já conhecida Sem Medo. Entregue pela cantora no início deste ano, a música composta em parceria com Felippe Lau e co-produzida pelo guitarrista Davi Moraes, costura diferentes ritmos e possibilidades de forma sempre acessível. Um misto de soul, pop e reggae funkeado que evoca a obra de Sandra de Sá, mas que em nenhum momento oculta a identidade de Mahmundi. “E absorver a lei que diz que tudo pode ser / Tudo é pra aprender / Tudo é pra evoluir / Tudo é pra viver“, canta em meio a versos sorridentes que parecem pensados para grudar na cabeça do ouvinte.

O mesmo cuidado acaba se refletindo em outros momentos ao longo do trabalho. É o caso de Nova TV, canção que poderia pertencer a Djavan, mas que encontra no jogo de palavras lançado pela artista um precioso elemento de transformação. “Mãos de origami / A sociedade tenta / As coisas não bastam / O caos é beleza / No chão de tatame“, canta. Mesmo a derradeira Vai, com suas melodias acústicas à la Bon Iver, em nenhum momento perverte a atmosfera ensolarada e aspecto autoral que serve de sustento ao disco, indicativo do completo domínio de Vale em relação à própria obra.

Embora econômico, Mundo Novo em nenhum momento parece diminuir a força criativa e versatilidade da cantora dentro de estúdio. São seis faixas que se espalham em um intervalo de mais de 20 minutos de duração, tempo suficiente para que a artista transite por entre gêneros, possibilidades e experiências sentimentais de forma sempre detalhista, mágica. Um colorido catálogo de ideias que tem início na imagem de capa do disco, trabalho que conta com assinatura de Gabriel Kempers, e segue em cada fragmento de voz ou mínimo retalho instrumental que define esse território conceitual desbravado pela artista. Sejam bem-vindos ao novo álbum de Mahmundi.