"Mal dos Trópicos"

Ano: 2019
Selo: Independente
Gênero: Indie, Alternativa, MPB
Para quem gosta de: Johnny Hooker e Filipe Catto
Ouça: Noite Vazia e Me Destrói
Nota: 7.8

Crítica | “Mal dos Trópicos (Queda e ascensão de Orfeu da Consolação)”, Thiago Pethit

Thiago Pethit passou a última década brincando com a (des)construção da própria identidade criativa. Da atmosfera intimista e clima de cabaré que embala o inaugural Berlim, Texas (2010), passando pela forte teatralidade do bem-recebido Estrela Decadente (2012) ao diálogo com o glam rock de David Bowie e Lou Reed, em Rock’n’roll Sugar Darling (2014), cada novo registro de inéditas entregue pelo músico paulistano parece transportar o ouvinte para um território parcialmente transformado, estrutura que volta a se repetir nas canções do melancólico Mal dos Trópicos (Queda e ascensão de Orfeu da Consolação) (2019, Independente).

Primeiro registro de inéditas do cantor em cinco anos, o trabalho que conta com produção de Diogo Strausz (Alice Caymmi, Mahmundi) não apenas se distancia Pethit do rock nostálgico detalhado no álbum que o antecede, como reflete o lado mais sombrio do músico paulistano. “Eu não escrevo canções de amor. Mas canções sobre a ausência ou sobre a falta do amor. Sobre o abandono, o pedido de retorno, o lamento e a dor. Quando escrevo sobre amor, escrevo mais sobre mim do que sobre o outro. É sobre a solidão mais do que sobre amar“, escreveu no texto de apresentação da obra, apontando a direção seguida até o último verso do trabalho.

Síntese dessa profunda sensação de abandono ecoa com naturalidade na primeira grande composição do disco, Noite Vazia. “Eu sou a dobra / Eu sou um labirinto vivo / Tudo que se perdeu sou eu … Se você vier ao fim do dia / Tente não me deixar / Só na minha noite vazia“, canta enquanto a base cíclica da canção reforça o tom angustiado e claustrofóbico detalhado nos versos de Pethit. Uma soturna espiral poética que volta a se repetir logo na música seguinte, Me Destrói. “Te guardo / Te aguardo / Você não vai voltar“, reflete. São versos entristecidos, porém, sóbrios, por vezes conformistas, oposto ao eu lírico dramático detalhado em obras como Estrela Decadente.

Dos poucos momentos em que se entrega ao romantismo dos versos, como em Teu Homem, Pethit mantém firme o tom sorumbático da obra. “Meu mundo sem nós dois é de ninguém / Se agora ou depois não possa ser teu homem / Eu quero ser teu homem / Seja meu homem primeiro“, confessa em meio a trechos ora cantados, ora declamados, ocupando as pequenas lacunas instrumentais deixadas por Strausz. São poemas tão metafóricos quanto descritivos, como a travessia pelo centro de São Paulo, seus personagens e acontecimentos, base da derradeira faixa-título da obra — “Essa é uma historia de amor e maldição / Na Republica ao som do techno / Uma tribo de garotos nus / Dança ao redor do poeta / Segurando seus fálicos triunfos“.

Parte substancial da amargura que serve de sustento ao disco nasce como um produto direto da forte interferência de Strausz, por vezes, maior e mais presente do que o próprio cantor. São arranjos de cordas, samples e instantes de profundo recolhimento que naturalmente impulsionam a poesia de Pethit. Variações orquestrais ou mesmo diálogos com a música eletrônica, estrutura que posiciona Mal dos Trópicos entre o ambiente urbano de Adriana Calcanhotto, em Cantada (2002), e o trip-hop de estrangeiros como Portishead e Massive Attack. Mesmo a contida Rio, com sua base acústica, cresce em meio a aplausos, camadas e sobreposições instrumentais, lembrando uma versão abrasileirada do som produzido pelo norte-americano Perfume Genius.

Entre referências e citações à cultura grega, Pethit e o parceiro de produção entregam ao público uma obra conceitualmente diversa, ampla. Claro que esse profundo refinamento estético não oculta instantes de maior desequilíbrio, como na rima pobre de Orfeu — “Fazer do teu sexo / O meu verso controverso / Meu desejo é festa pagã / Quando eu te beijo no Copan” — ou a base econômica de Nature Boy, adaptação que mais parece uma sobra do trabalho de Alice Caymmi em Rainha dos Raios (2014), registro também produzido por Strausz. Ideias e experiências que mesmo imprecisas, refletem o completo desejo do músico paulistano em se reinventar a cada novo registro autoral.