"Malaka"

Ano: 2019
Selo: Deck Disc
Gênero: Pop, Trap, Brega
Para quem gosta de: Karol Conká e Gaby Amarantos
Ouça: Brega Doido, Tu Perdeu e Aperta o Botão
Nota: 7.0

Crítica | “Malaka”, Keila

Como integrante da Gang do Eletro, Keila Gentil e seus parceiros de banda, DJ Waldo Squash, Marcos Maderito e William Love, trabalharam na consolidação da música paraense, fazendo da criativa colagem de referências, batidas eletrônicas e fórmulas instrumentais o princípio de toda uma sequência de obras que seriam apresentadas no decorrer da presente década. Em Malaka (2019, Deck Disc), primeiro álbum de estúdio em carreira solo, a cantora e compositora vai além, provando de novas possibilidades e ritmos, proposta que naturalmente convida o ouvinte a dançar.

Não por acaso, Keila e o parceiro de produção, o baiano Felipe Pomar, escolheram a divertida Brega Doido como faixa de abertura do disco. São pouco mais de dois minutos em que a artista paraense brinca com as palavras em uma estrutura deliciosamente pegajosa e dançante. “Quem ouve o Brega Doido não consegue resistir / A Malaka treme / A Malaka desce / A Malaka Pira / A Malaka mexe“, canta enquanto sintetizadores e batidas quentes correm ao fundo da canção, indicando a trilha seguida até a faixa de encerramento do disco, Aperte o Botão.

Ser ‘Malaka’ é ter atitude e gritar para ser ouvida em uma sociedade que insiste em calar. O estigma da periferia não é limitante. É motivante. Nossa cultura é rica e deve ser apresentada sem receio”, resume no texto de apresentação da obra. De fato, para além do direcionamento festivo que move a composição dos versos, Keila utiliza do trabalho como um importante registro da essência paraense. Do criativo resgate de ritmos à composição dos temas, sempre pontuados por elementos da cultura local, cada fragmento do disco reflete a completa versatilidade da cantora.

Instantes em que a artista paraense vai do romantismo agridoce de Kente, passa pelo trap futurístico de Loka, música que lembra os primeiros trabalhos de Karol Conká, e ainda flerta com o funk carioca em músicas como Endoida. É como se do material apresentado há dois anos, durante a produção do primeiro EP de inéditas da carreira, a cantora fosse além, estreitando a relação com artistas vindos de diferentes campos da música. São nomes como TrapFunk & Alívio (Toom Toom), Ouro (Sou Keila) e Viviane Batidão (Vou Pisar), parceiros de Gentil na consolidação da obra.

Mesmo cercada de colaboradores, interessante perceber em faixas como Loka, Tu Perdeu e Kanalha, todas assumidas individualmente por Keila, os momentos de maior acerto da obra. São versos marcados pela minúcia do discurso feminista, desilusões amorosas e instantes de evidente entrega emocional, como um avanço claro em relação ao material que embala as antigas canções da Gang do Eletro. A própria faixa de encerramento do disco, consumida pela força das rimas, evidencia a força do discurso político da cantora, como uma fuga breve do restante da obra.

Com base nessa estrutura essencialmente diversa, Keila entrega ao público um registro tão divertido e despretensioso, como necessário. Da construção das batidas, estrutura que vai do brega ao trap, do rap ao pop eletrônico, passando pela formação dos versos, sempre pegajosos, tudo se projeta de forma acessível, como um permanente diálogo da cantora com o próprio ouvinte. Um colorido cardápio de ideias que vai da composição das letras à identidade visual do trabalho, indicativo do completo esmero da artista e seus parceiros na formação da obra.