"Manual de Sobrevivência para Dias Mortos"

Ano: 2019
Selo: Independente
Gênero: Rock, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Nação Zumbi e Karina Buhr
Ouça: Moinhos de Tempo e O Selvagem
Nota: 7.8

Crítica | “Manual de Sobrevivência Para Dias Mortos”, China

Por vezes óbvio e exageradamente didático, Manual de Sobrevivência para Dias Mortos (2019, Independente) é um disco feito para ser absorvido sem grandes dificuldades. Entretanto, muito se engana quem percebe nessa simplificação do discurso um componente de enfraquecimento da obra. Em um cenário marcado pelo ressurgimento da extrema direita, exaltações a antigos regimes militares e o avanço de um pensamento conservador e hipócrita, sobrevive na clareza dos versos assinados pelo pernambucano China um elemento de imediata comunicação com o ouvinte.

Sai de casa mas não sabe se volta / Todo dia um coração na mão / Quem vai determinar quais são as chances / De alguém virar estatística, nota de jornal?“, questiona, logo nos primeiros minutos do disco, em Vivo?, composição que sintetiza parte do lirismo cru que rege o disco. São versos que discutem o atual cenário político do Brasil e do mundo, porém, partindo elementos e referências históricas, como um permanente resgate criativo que passeia por diferentes fases e instantes de forte articulação social.

Exemplo disso está no bem-sucedido encontro entre China e a poetisa pernambucana Bell Puã, em Moinhos de Tempo. “Até dói ser tão realista / Saber que tanto cristão diz ‘amai a todos irmão’ / Mas calam se o preto é executado / Só abrem a boca se o preto é cotista … Século XXI e branco insistindo em ser neonazista / Fazem rebuliço só de pensar que Jesus podia ser negro / Que dirá uma preta contrariando estatística?“, rima enquanto batidas e guitarras cíclicas contribuem para o ambiente caótico que conta com produção do experiente Yuri Queiroga (Tibério Azul, Vitor Araújo).

A mesma crueza na composição dos versos acaba se refletindo em O Selvagem, música em que vai do retrocesso ao forte desejo de mudança. “Há compensação em destruir e o por quê? / O ser humano é um processo que evolui para trás / E o infinito tá distante demais / Vamos lá retroceder porém render-se jamais“, canta. No reducionismo de Fascismo Tupinambá, guitarras e batidas tortas que se abrem para a poesia angustiada de China: “Liberdade de pensamento consciência e religião / O cristão faz o juramento e a igreja a separação / Todos querem educação o saber, a voz da razão / Mas pensar não é a questão / A tortura da opinião / Fascista, Cidadão de bem, tabacudo, vai tomar no cu“.

O grande problema de Manual de Sobrevivência para Dias Mortos, assim como no antecessor Telemática (2014), está na busca incessante do artista em explorar diferentes ritmos e fórmulas instrumentais de maneira inexata, principalmente na segunda metade do disco. Se por um lado essa pluralidade de elementos contribui para conceito caótico que embala os versos, a propositada ruptura criativa, em músicas como Pó de Estrela, com Uyara Torrente, e Mareação, ao lado de Natália Matos, acaba distanciando o ouvinte do núcleo da obra. É como se o personagem angustiado que surge nos primeiros minutos do álbum perdesse fôlego lentamente.

Do flerte com o hardcore, em Fascismo Tupinambá, ao movimento firme das guitarras e elementos percussivos, em Moinhos de Tempo, O Selvagem e Frevo e Fúria, essa última, colaboração com o veterano Andreas Kisser (Sepultura), Manual de Sobrevivência para Dias Mortos acerta justamente nos momentos de maior ferocidade e entrega emocional. Um exercício minucioso que se reflete não apenas na composição dos arranjos e versos despejados por China, mas, principalmente, na imagem de capa do disco, uma fotografia dura de Pamella Gachido, e no projeto gráfico de Elza Silveira, com encarte inspirado em antigos documentos do DOPS.