"O Cão de Toda Noite"

Ano: 2019
Selo: Mercúrio Música
Gênero: Pós-Rock, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Mahmed e Kalouv
Ouça: O Silêncio É Vermelho e Prepare-se Para o Pior
Nota: 8.6

Crítica | Maquinas: “O Cão de Toda Noite”

O som de vidro se partindo logo nos primeiros segundos de Maus Hábitos, faixa de abertura de O Cão de Toda Noite (2019, Mercúrio Música), funciona como um indicativo claro da completa imprevisibilidade que marca o segundo e mais recente álbum de estúdio do grupo cearense Maquinas. Sequência ao atmosférico Lado Turvo, Lugares Inquietos (2016), obra que parecia jogar com o minimalismo dos elementos, o presente disco encontra na pluralidade de ritmos e fórmulas instrumentais a passagem para um registro que encontra no óbvio um componente de necessária perversão. Instantes de puro delírio, como se do território em branco e preto detalhado no disco anterior, o grupo de Fortaleza fosse além.

Não por acaso, o quinto formado por Allan Dias (baixo, voz), Roberto Borges (guitarra, sintetizador e voz), Yuri Costa (guitarra, sintetizador e voz), Gabriel de Sousa (saxofone e samples) e Ricardo Lins (bateria e percussão) escolheu justamente a atmosférica O Silêncio É Vermelho para apresentar o trabalho. Verdadeiro exercício de transição entre o material entregue no disco anterior e as canções do presente álbum, a faixa de quase nove minutos se revela ao público em pequenas doses, valorizando cada fragmento de voz, arranjo ou instante breve de improviso, estrutura que encolhe e cresce a todo momento, arrastando o ouvinte cada vez mais para dentro do ambiente torto da obra.

São variações instrumentais que vão do som jazzístico do Tortoise ao mais completo êxtase criativo, como se cada composição entregue pelo grupo no decorrer da obra apontasse para uma direção completamente distinta, sempre incerta. Exemplo disso está na sequência formada por Sintomas e Meia Memória. São pouco mais de dez minutos em que o quinteto cearense parece brincar com as possibilidades, detalhando desde abstrações sensíveis até camadas de distorção tratadas de maneira orquestral, riqueza que se reflete até a faixa de encerramento do disco, Nuvem Preta. Fragmentos de vozes, ruídos e texturas detalhistas que se abrem para a chegada de um time seleto de colaboradores como Clau Aniz, Ayla Lemos, Eros Augusus, Y.A.O. e Felipe Couto.

Tamanha versatilidade e segurança na construção dos arranjos faz com que o quinteto vá de um extremo a outro do trabalho sem necessariamente fazer disso o estímulo para uma obra confusa. São instantes de fúria intercalados por momentos de forte acolhimento, dualidade explícita no som caótico de Prepare-se Para o Pior, bem-sucedida colaboração com Breno Baptista, e a atmosférica Melindrome, com pouco mais de dois minutos de ambientações serenas. Um ziguezaguear de ideias que dialoga de maneira expressiva com o trabalho de contemporâneos como Mahmed e Kalouv, porém, partindo de uma estrutura deliciosamente incerta, como se os integrantes da banda testassem os próprios limites dentro de estúdio.

E isso se reflete não somente na forma como os arranjos são trabalhados no decorrer da obra, mas, principalmente, na forma como as letras servem de complemento a esse universo propositadamente instável. São versos ancorados em relacionamentos fracassados, conflitos existencialistas e instantes de provocativa ilusão, estrutura que naturalmente aponta para a narrativa onírica de David Lynch, como se tudo flutuasse entre o ficção e a realidade, o mundo físico e imaginário, distanciando o ouvinte de qualquer resposta imediata. Mesmo a base instrumental do disco, adornada pela inserção ambientações empoeiradas e metais complementares, parece dialogar com a obra do compositor Angelo Badalamenti, parceiro de longa data do cineasta norte-americano.

Obra de possibilidades, O Cão de Toda Noite reflete o esforço do quinteto cearense em se reinventar dentro de estúdio, fazendo de cada composição o estímulo para revelar ao público de um registro propositadamente inexato, torto. São pouco mais de 50 minutos em que o grupo de Fortaleza não apenas resgata uma série de elementos originalmente testados durante o lançamento de Lado Turvo, Lugares Inquietos, vide o material entregue nas já citadas O Silêncio É Vermelho e Sintomas, como perverte parte dessa estrutura, brincando com a interpretação do ouvinte. Ideias e melodias sujas que fazem do presente disco uma obra viva, maior e mais complexa a cada nova audição.



Leave a Reply