"Assim Tocam Os Meus Tambores"

Ano: 2020
Selo: Pupila Dilatada
Gênero: Hip-Hop, Rap, R&B
Para quem gosta de: Black Alien, Sain e Criolo
Ouça: Rompeu o Couro e É Manhã (Vem)
Nota: 8.0

Crítica | Marcelo D2: “Assim Tocam Os Meus Tambores”

Ainda que carregue o nome de Marcelo D2, Assim Tocam Os Meus Tambores (2020, Pupila Dilatada) é uma obra de essência coletiva. Produto do isolamento social causado por conta da pandemia de Covid-19, o trabalho produzido e gravado em um processo aberto, em mais de 150 horas de transmissão pelo Twitch, mostra o esforço do rapper carioca em estreitar a relação com diferentes nomes da cena brasileira, mesmo distante de grande parte deles. São fragmentos de vozes, batidas, arranjos e rimas que se entrelaçam em um fluxo contínuo de pensamento, estrutura que embala a experiência do ouvinte do momento em que o álbum tem início, em Bem-Vindo Meus Cria, até a derradeira Pelo Que Eu Acredito.

Maior a cada nova audição, o sucessor de Amar É Para Os Fortes (2018) é um trabalho que exige tempo até ser absorvido por completo. E não poderia ser diferente. Por entre as brechas de cada canção, uma infinidade de colaboradores, interferências artísticas e até membros da própria família que surgem para assumir parte dos versos. Exemplo disso acontece na ótima É Amanhã (Vem), bem-sucedido encontro com o rapper cearense Don L, mas que chama a atenção pela voz doce de Luiza Machado, produtora e esposa de D2. “É manhã, vem o sol / Certo como o sol que vai nascer / Certo como o sol que vai surgir e aquecer, canta em tom esperançoso.

Uma vez imerso nesse cenário marcado pelas possibilidades, D2 garante ao público, também presente no processo de composição do trabalho, uma de suas obras mais diversas. Do momento em que tem início, na já citada Bem-Vindo Meus Cria, o artista carioca e seus colaboradores parecem brincar com a criativa colagem de ritmos, mudando de direção mesmo dentro de cada faixa. Perfeita representação desse resultado pode ser percebida em Rompeu o Couro. Completa pela participação de BK, Baco Exu do Blues, Juçara Marçal e a poesia minuciosa de Anelis Assumpção (“Minha matéria finda mas a espírita é infinita em gerações“), a música encolhe e cresce, quebra e avança de maneira incerta, ampliando de forma significativa os limites do álbum.

Mesmo os temas incorporados no decorrer do trabalho em nenhum momento fixam residência em um conceito específico. São versos em que discute o atual cenário político do país, como Pela Sombra (“Escritório do ódio, nem se escondem mais / Sádico tiranos, eles querem é mais“), porém, sempre intercalados por momentos de maior leveza e celebração, conceito explícito em músicas como Magrela87 (“Futuca, dança, ri e deixa eu morder / O melhor da vida é dividir ela com você“) e 4ª às 20h (“Vão sumir tumores quando os tambores eu tocar / Dissabores dizimar / Acenda uma vela pra iluminar“), essa última, completa pela participação de Marçal e Rodrigo Ogi.

Claro que isso está longe de parecer uma novidade para quem há tempos acompanha as criações de D2. A principal diferença em relação aos últimos trabalhos de estúdio, como Nada Pode Me Parar (2013) e Amar É Para Os Fortes, está no uso de ritmos tribais e evidente esforço em incorporar elementos da cultura africana, conceito que muito se assemelha ao material entregue em Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa (2015), segundo álbum de Emicida. Prova disso acontece na parceria com Criolo, em Tambor, O Senhor da Alegria, faixa concebida a partir de trechos da obra do historiador Luiz Antônio Simas, e uma síntese clara de tudo aquilo que o rapper busca explorar em outros momentos ao longo do disco.

Pensado para além dos limites da própria obra, Assim Tocam Os Meus Tambores ainda chega acompanhado de um filme homônimo dirigido pelo próprio artista, diferentes registros visuais, entrevistas e conversas com grande parte dos realizadores envolvidos no processo de composição do disco. Um precioso exercício criativo que exige ser ser revisitado, como se por trás de cada composição, D2 ocultasse um universo de pequenos detalhes, rimas e formas instrumentais, fazendo do próprio isolamento o estímulo para uma obra de dimensões incalculáveis. “O isolamento social mexe com a gente, é um lugar de dor. Foi realmente um baque neste ano. Me ensinou muito. Olhar o mundo vazio lá fora foi bem assustador“, respondeu em entrevista à Rolling Stone, reforçando esse direcionamento. Instantes em que o rapper transforma os próprios conflitos, medos e conquistas em um importante componente de diálogo com o próprio ouvinte.