"Cinzento"

Ano: 2020
Selo: Deck Disc
Gênero: Samba, Funk, Soul
Para quem gosta de: Azymuth e João Donato
Ouça: Posto 9, Cinzento e Reciclo
Nota: 7.5

Crítica | Marcos Valle: “Cinzento”

O sorriso no rosto e a essência radiante de obras como Previsão do Tempo (1973) e Vontade de Rever Você (1981) naturalmente fizeram de Marcos Valle uma espécie de avatar musical do espírito carioca. Entretanto, interessante perceber em Cinzento (2020, Deck Disc), mais recente criação do multi-instrumentista fluminense, o princípio de um novo direcionamento estético. Longe da atmosfera ensolarada que marca algumas de suas principais composições, como Samba de Verão, Água de Coco e Estrelar, cada fragmento do presente disco convida o ouvinte a se perder em um ambiente marcado pela melancolia dos arranjos e profunda entrega sentimental na composição dos versos.

Contraponto soturno ao material entregue no antecessor Sempre (2019), lançado há poucos meses, o novo álbum preserva o groove habitual da discografia de Valle, porém, se permite provar de novas possibilidades. Exemplo disso está na base atmosférica da introdutória Reciclo, um samba funkeado que se revela ao público em pequenas doses, sem pressa, como um preparativo para o material que orienta a experiência do ouvinte até o último instante do álbum, na instrumental Sem Palavras.

São composições embriagadas pela saudade, cenário consumidos pela passagem do tempo e personagens icônicos que contribuíram para a formação da identidade musical do artista. Exemplo disso está na dobradinha composta por Posto 9 e Só Penso em Jazz, próximo ao encerramento do disco. São pouco mais de oito minutos em que Valle e seus parceiros de estúdio, entre eles, o baterista Renato Massa Calmon e o baixista Alberto Continentino, se espalham a versos descritivos, citações à obra de Tom Jobim e instantes de doce nostalgia, como se passado e presente convergissem em um único ambiente.

Entretanto, para além de uma obra puramente saudosista, Valle estabelece no encontro com novos colaboradores, todos assumidamente influenciados pela extensa discografia do músico carioca, um estímulo natural para o fortalecimento do trabalho. São nomes como Kassin (Lugares Distantes), Bem Gil (Se Proteja) e Moreno Veloso (Redescobrir) que surgem e desaparecem durante toda a execução do álbum. Inserções poéticas e instrumentais que não apenas preservam a identidade criativa do artista, como aportam em novos territórios criativos.

Não por acaso, Valle escolheu a parceria com Emicida como faixa-título da obra. Parceiros desde o bem-sucedida colaboração em Pequenas Alegrias da Vida Adulta, uma das principais faixas do último registro do rapper paulistano, AmarElo (2019), a dupla se reencontra agora para a entrega de uma música que utiliza do movimento calculado das palavras como um estímulo para a composição dos arranjos. Frações poéticas que parecem borbulhar na cabeça do ouvinte, conceito evidente na já citada Reciclo, também assinada em conjunto. “Em tudo eu acho graça / Mesmo em meio à desgraça / Entendo e rendo graça / Que a vida ainda é de graça“, cresce a letra a da canção, indicando a trilha agridoce seguida no restante do álbum.

Com base nessa estrutura, o músico carioca entrega ao público uma obra segura, porém, pontuada por instantes de evidente transformação. É como se do ambiente ensolarado que marca as canções do álbum anterior, Valle fosse além, revelando ao público um novo e delicado conjunto de ideias e experiências sentimentais. A principal diferença em relação ao material apresentado em Sempre está no forte aspecto nostálgico que embala os rumos do presente disco. Canções que costuram memórias, sensações e conflitos pessoais de forma sempre intimista, cuidado que se reflete durante toda a execução do registro.