"The Lighthouse"

Ano: 2019
Selo: Sacred Bones Records
Gênero: Experimental, Instrumental, Dark Ambient
Para quem gosta de: Bobby Krlic e Mica Levi
Ouça: Stranded e Filthy Dog
Nota: 8.0

Crítica | Mark Korven: “The Lighthouse”

No ambiente falocêntrico de O Farol, onde a toxicidade do machismo orienta a composição de cada imagem regida pelo diretor Roger Eggers, o som assume uma caótica função de destaque. São ruídos e ambientações claustrofóbicas, a sirene que se projeta de maneira semi-aleatória e a constante quebra do conforto. Instantes de propositado desequilíbrio e corrupção criativa, estrutura que se completa pela forma como o compositor Mark Korven, parceiro do cineasta norte-americano desde o elogiado A Bruxa (2016), assume de forma notável a também perturbadora trilha sonora do filme protagonizado Willem Dafoe e Robert Pattinson.

A principal diferença em relação ao material produzido para a película anterior de Eggers, ou mesmo para o ainda recente Our House (2018), de Anthony Scott Burns, está na forma como Korven investe na composição de temas essencialmente densos, como blocos melódicos quase intransponíveis. Longe dos violinos estridentes que compunham a trilha de A Bruxa, o compositor canadense brinca com a lenta sobreposição de violoncelos e ruídos carregados de efeitos, proposta que ganha ainda mais destaque a medida em que a trama do filme se desenvolve.

Perfeita representação desse resultado está no distanciamento entre a introdutória Arrival, com suas orquestrações quase límpidas, e a atmosfera densa que contamina faixas como Filthy Dog e Into The Light, próximas ao encerramento da obra. São ambientações sombrias que encolhem e crescem a todo instante, tornando a experiência do ouvinte sempre incerta. Parte dessa estrutura faz lembrar do trabalho de Bobby Krlic (The Haxan Cloak) na também recente trilha sonora de Midsommar (2018). Frações instrumentais que se revelam ao público em pequenas doses, sem pressa, como se Korven jogasse com os instantes.



Exemplo disso está em Stranded. São pouco mais de dois minutos em que Korven vai de um canto a outro da canção de forma deliciosamente incerta. Instante de parcial silenciamento que se completam pela inserção de ruídos orquestrais, sopros e efeitos que parecem pensados para soterrar o ouvinte, como uma verdadeira avalanche sonora. Mais à frente, em Why’d Ya Spill Yer Beans?, o mesmo direcionamento torto. Inicialmente contida, a canção se quebra em meio a ambientações sujas, arranjos uivantes e metais que se projetam de forma quase percussiva, rompendo com todo e qualquer traço de morosidade.

Mesmo imerso nesse cenário marcado pelo caos, interessante perceber a forma como Korven administra instantes de breve recolhimento. É o caso de Curse Your Name / Dirty Wheater. Do momento em que tem início, em meio a sons que parecem gerados por taças de cristais, cada fragmento da canção reflete a minúcia do artista canadense na composição dos arranjos, como uma fuga do restante da obra. Mesmo Why’d Ya Spill Yer Beans?, antes de ser engolida pela tempestade fantasmagórica que cresce nos momentos finais da canção, revela ao público um dos momentos de maior leveza do trabalho.

Com base nessa estrutura, Korven entrega ao público uma obra que não apenas dialoga de forma insana com a narrativa visual de Roger Eggers, como funciona de maneira independente. Trata-se de uma obra marcada pelos detalhes, curvas e constantes quebras rítmicas, estrutura que naturalmente aponta para o trabalho de outros compositores também responsáveis por importantes exemplares do novo cinema de horror, como o saxofonista Colin Stetson, na bem sucedida trilha sonora de Hereditário (2018), e, principalmente, Mica Levi, no elogiado Under The Skin (2014).