"Rocinha"

Ano: 2021
Selo: QTV
Gênero: Experimental, Eletrônica, Afro
Para quem gosta de: Negro Léo e Cadu Tenório
Ouça: Cerimônia, Ponto e A Caminho de Palmares
Nota: 8.8

Crítica | Mbé: “Rocinha”

Pesquisador, produtor cultural e engenheiro de som que trabalhou com nomes como Ana Frango Elétrico e Thiago Nassif, o músico Luan Correia passou mais de dois anos imerso na captação de ruídos, fragmentos de vozes e sobreposições atmosféricas que vão de terreiros a apresentações ao vivo. O resultado desse minucioso processo de seleção está nas composições de Rocinha (2021, QTV), primeiro álbum de estúdio do artista que nasceu e cresceu na favela que dá nome ao disco e uma obra marcada pelas possibilidades. São ambientações ritualísticas e trechos de falas de historiadores e ativistas negros, como Maria Beatriz Nascimento (1942 – 1995), estrutura que ganha novo significado nas mãos do produtor que se apresenta como Mbé, palavra em yorubá que significa “ser e existir”.

De essência política, como tudo aquilo que Correia tem produzido em seus outros trabalhos, como o coletivo de rap Justa Causa e a dupla Ó Só, Rocinha diz que veio logo nos primeiros minutos, na introdutória Aos Meus. São pouco menos de 50 segundos em que o produtor carioca parte da repetição das vozes e batidas que emulam o som de tiros como elemento de provocativo diálogo com o ouvinte. “O que vocês esperavam que acontecesse quando tiraram a mordaça que tapava essas bocas negras?“, questiona a voz empoeirada que cresce por entre as brechas da canção. São fragmentos rápidos, sempre pontuais, porém, certeiros nas mãos do artista, ampliando os domínios da obra. “Os samples funcionam como amostras de onde viemos e do que somos, as batidas deixam pegadas nas trilhas e os ruídos ressoam aquilo que não nos contam“, resume no texto de apresentação do álbum.

Esse mesmo uso fragmentado dos elementos e criativa amarra das ideias acaba se refletindo em outros momentos ao longo do trabalho. Perfeita representação desse resultado pode ser percebida na atmosférica Celebração do Xingu ao Congo. São cantos de pássaros e ruídos animalescos que se espalham em meio a camadas de percussão e ruídos granulados, conceito que muito se assemelha ao som produzido por estrangeiros como Forest Swords e Oneohtrix Point Never. Instantes em que Correia transporta paisagens inteiras para dentro de estúdio, como na soturna Maria Vieira do Nascimento, canção de apenas dois minutos, mas que evidencia uma pluralidade de pequenos detalhes, ritmos e quebras instrumentais que tingem com incerteza a experiência do ouvinte.

Entretanto, para além do direcionamento experimental que serve de sustento à obra, a estreia de Mbé encanta em grande parte pelo caráter acolhedor dos elementos. Exemplo disso pode ser percebido na transcendental Cerimônia, segunda faixa do disco. Utilizando da voz de Juçara Marçal como um precioso instrumento, Correia convida o ouvinte a se perder em um universo de emanações cósmicas, texturas e ambientações que surgem e desaparecem durante toda a montagem do material. A própria canção de encerramento do registro, Mistura Baiana, colaboração com Lucas Pires, estabelece na leveza dos arranjos e uso abafado das melodias um importante componente de conforto para o público, com uma fuga breve do restante do trabalho e suas quebras conceituais.

Interessante perceber no cruzamento entre esses dois direcionamentos tão distintos o estímulo para algumas das melhores composições do álbum. É o caso de Ponto. Completa pela participação de José Mekler, parceiro de banda no Ó Só, a canção parte de uma base labiríntica, porém, cresce no delirante cruzamento de ideias e ritmos extraídos de diferentes campos da música brasileira. São reverberações inexatas, sempre carregadas de efeitos, conceito que ganha ainda mais destaque na criação seguinte, A Caminho de Palmares, registro que mais uma vez se completa pela voz etérea de Marçal e o forte discurso racial. Mesmo a percussão de Orlando Costa e Luizinho do Jêje, captada durante uma apresentação do espetáculo A Culpa é do Ritmo, no Audio Rebel, ganha novo significado à medida em que a faixa avança, revelando diferentes nuances e novas possibilidades criativas.

Tamanho esmero no processo de montagem do trabalho revela ao público um material que parece maior e mais complexo a cada nova audição. São incontáveis camadas instrumentais, ruídos e texturas eletrônicas que ganham forma em meio a cantos ancestrais e vozes de resistência, sempre marcadas pelo forte discurso político e racial. É como se Correia transportasse para dentro de estúdio parte das experiências como homem preto e tudo aquilo que vivido durante o processo de composição do álbum. Instantes de fúria e necessária inquietação, porém, pontuados por momentos de maior calmaria, direcionamento que se reflete tão logo o registro tem início, no som quebradiço de Aos Meus, mas que acaba se refletindo até a derradeira Mistura Baiana. Frações talvez disformes, tortas, mas que uma vez entrelaçadas, garantem ao disco um caráter essencialmente orgânico, como uma obra viva.

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