"Miss Universe"

Ano: 2019
Selo: ATO
Gênero: Indie, Soul, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Vagabon e Miya Folick
Ouça: Monsters Under The Bed, Tears e Melt
Nota: 8.5

Crítica | “Miss Universe”, Nilüfer Yanya

Ansiedade, depressão, medo e abandono. Esses são alguns dos principais temas que vem sendo explorados pela cantora e compositora Nilüfer Yanya desde o início da carreira. São reflexões melancólicas sobre a vida adulta que sutilmente apontam para diferentes campos da música, estrutura evidente no refinamento instrumental e poético de algumas das principais criações da artista inglesa, como Baby Luv e, principalmente, Thanks 4 Nothing. Um doloroso exercício de libertação, detalhamento lírico e exposição sentimental, estrutura que serve de base para o primeiro álbum de estúdio da cantora, Miss Universe (2019, ATO).

Concebido em um intervalo de poucos meses, o trabalho que conta com co-produção de Will Archer (Jessie Ware, Vondelpark) utiliza de uma estrutura conceitual para explorar algumas das principais inquietações e conflitos particulares de Yanya. Como indicado logo na abertura do disco, parte expressiva da obra se passa em uma central de atendimento da WWAY HEALTH TM, clínica fictícia para o tratamento de transtornos mentais. “Estamos aqui por você. Nos importamos com você. Você não precisa se preocupar: a gente se preocupa por você“, reforça a voz da atendente que parece confortar o ouvinte.

Uma vez dentro desse ambiente acolhedor, Yanya utiliza de pequenas confissões sentimentais para rapidamente dialogar com o próprio público. “Quando o toque dói / Mas você não pode aliviar a dor / Porque isso está te dizendo alguma coisa / Isso faz você parecer insana / Como se estivessem ligando para você / Mas não existe telefone / Está tudo na sua cabeça“, canta na melancólica In Your Head, composição que sintetiza parte das experiências e tormentos compartilhados pela artista durante toda a execução da obra. Uma coleção de versos sóbrios em que externaliza diferentes conflitos intimistas, típicos de qualquer indivíduo sofredor.

Exemplo disso está na derradeira Heavyweight Champion of the Year. São versos angustiadas em que Yanya estabelece um sufocante diálogo mental com ela mesma. “Estou cansada / De todos esses sonhos … Então você é uma mentirosa, uma mentirosa, garota / Você conhece seu limite“, canta enquanto guitarras e batidas encolhem e crescem a todo instante, reforçando a sensação claustrofóbica em torno da canção. A mesma estrutura acaba se refletindo em outros momentos ao longo da obra, como Monsters Under The Bed e Angels, canções em que a artista britânica desaba emocionalmente, melancolia que vem sendo destilada desde as primeiras criações da artista, como no EP Baby Luv (2017).

Da tristeza explícita nos versos, a base delicada base para a composição dos arranjos. São inserções econômicas que ora apontam para o R&B dos anos 1980, ora se entregam ao rock em sua forma mais crua e honesta. São ecos de Sade, em Melt e Tears, passagens pela obra de Tracy Chapman, em Baby Blu e Safety Net, ou mesmo pequenas variações instrumentais que apontam para os últimos registros de Yanya, vide a já citada Monsters Under The Bed. Três ou mais décadas de referências que se moldam em uma estrutura própria da artista britânica.

Livre de qualquer traço de urgência, Miss Universe encanta justamente pela forma como a cantora detalha cada elemento do disco, revelando ao público uma obra que parece crescer em uma medida própria de tempo. Difícil não se deixar conduzir pela profunda entrega emocional da músicas como Tears, Heavyweight Champion of the Year e todo o rico repertório montado para o álbum. Da formação dos arranjos, sempre econômicos, passando pelo refinamento poético dos versos, evidente é o esforço de Yanya em finalizar um registro de essência acolhedora, como um reforço direto ao tema central que embala as composições do disco.



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