"Mix$take"

Ano: 2019
Selo: Risco
Gênero: Indie, R&B, MPB
Para quem gosta de: Luiza Lian e Boogarins
Ouça: Pode Me Odiar e Oceano Franco
Nota: 8.3

Crítica | “Mix$take”, Giovani Cidreira

Giovani Cidreira pode ser tudo, menos um artista previsível. Depois de amadurecer criativamente durante o lançamento de Japanese Food (2017), trabalho em que dialoga de forma particular com a obra de Milton Nascimento e até Legião Urbana, o cantor e compositor baiano desconstrói a própria identidade artística nas canções de Mix$take (2019, RISCO). São sete faixas e pouco mais de 20 minutos em que o ouvinte passeia em meio a diferentes gêneros e possibilidades de forma sempre curiosa, provocativa. Frações poéticas e instrumentais que vão do pop atmosférico ao R&B em uma linguagem íntima apenas do músico.

Concebido em parceira com o experiente Benke Ferraz (Boogarins), Mix$take diz a que veio logo nos primeiros minutos, em Oceano Franco. Trata-se de uma delicada reflexão sobre as incertezas da vida e uma versão para a também atmosférica Nikes, música originalmente composta por Frank Ocean para o álbum Blonde (2016). “Tem fogo em nossa porta, amor / Talvez eu não te veja, mas eu tô indo pra guerra / Me dê um beijo, estamos indo sem velas“, canta em meio a versos e ruídos eletrônicos que se completam pela presença de Jadsa Castro, parceira de longa data de Cidreira.

O mesmo direcionamento estético acaba se refletindo com naturalidade na segunda faixa do disco, Pode Me Odiar. São pouco mais de quatro minutos em que sintetizadores, texturas e batidas densas se espalham de forma propositadamente irregular, esfarelando a poesia dolorosa de Cidreira — “Amo você devagar / São cinco dedos, cinco fases / Pra todos os lados eu vou / Pode me odiar agora“. Instantes de profundo recolhimento, estrutura que assume novo e delicado direcionamento na canção seguinte do trabalho, Seu Cigano Flow, um pop delirante que se abre para a breve colaboração da cantora e compositora paraense Luê.

Composição que mais se distancia do restante da obra, Ngm + Vai Tevertrist não apenas prova de melodias ensolaradas e vozes fortes, como adapta de maneira sutil uma série de conceitos originalmente testados em Japanese Food. São sintetizadores e passagens rápidas pelo pop dos anos 1980, estrutura que tinge com nostalgia o material entregue em Mix$take. Essa mesma relação com o trabalho entregue há dois acaba se refletindo de forma deliciosamente torta em Mano Sereia. Entre captações de áudio que denunciam o suposto aparecimento de um homem peixe, Jadsa e Filipe Castro assumem os versos e rica base instrumental da canção, ampliando os limites da obra.

Para o encerramento do trabalho, a estranha combinação gerada entre Casa Vulva e a reprise Pode Me Odiar No. 2. São retalhos de vozes, sintetizadores, samples e batidas eletrônicas que partem de uma estrutura minimalista e suja para mergulhar em pequenas reverberações harmônicas, por vezes acolhedoras. Uma estranha sobreposição de ideias e fórmulas atmosféricas, proposta que muito se aproxima do material entregue pela própria Boogarins durante o lançamento de Lá Vem a Morte (2017).

Rito de passagem para o terceiro álbum de estúdio do músico baiano — registro também produzido por Ferraz e completo pela presença de nomes como Luiza Lian, Fernando Catatau, Ava Rocha e integrantes do Maglore —, Mix$take mostra a completa versatilidade de Cidreira dentro de estúdio. Entre fragmentos de vozes e texturas eletrônicas, o cantor estabelece um curioso diálogo com a obra de estrangeiros como Blood Orange e Frank Ocean. Trata-se de um trabalho marcado pela propositada fragmentação das ideias e experiências pessoais de seu realizador, estrutura que em nenhum momento compromete o fortalecimento dos versos e sentimentos incorporados dentro de cada composição.



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