"I Was Told to Be Quiet"

Ano: 2019
Selo: Lab 344 / Yellow Racket Records
Gênero: Indie, MPB, Folk
Para quem gosta de: Marcelo Camelo e Wado
Ouça: Diz a Verdade e For I Am Just a Reckless Child
Nota: 8.0

Crítica | Momo: “I Was Told to Be Quiet”

Quem há tempos acompanha o trabalho de Marcelo Frota sabe que o cantor e compositor mineiro costuma transitar entre registros de essência introspectiva e criações levemente ensolaradas. Um lento desvendar de ideias, experiências sentimentais e versos existencialistas que passa pela melancolia minimalista de Serenade of a Sailor (2011) e Cadafalso (2013), respira aliviado em Voá (2017) e flerta com a psicodelia de forma quase nostálgica no abrangente Buscador (2008). Composições sempre sensíveis, tocantes, cuidado que se reflete desde a estreia do artista no introspectivo A Estética do Rabisco (2006), primeiro álbum sob o título de Momo.

Satisfatório perceber nas canções de I Was Told to Be Quiet (2019, Lab 344 / Yellow Racket Records), sexto e mais recente álbum do músico que hoje reside em Lisboa, Portugal, uma colorida soma de todas essas experiências poéticas e instrumentais acumuladas no decorrer da última década. São melodias detalhistas que se espalham em meio a versos confessionais, românticos ou puramente sofredores, como se Momo fizesse das próprias experiências um componente de imediato diálogo com o ouvinte.

Não por acaso, o músico mineiro escolheu For I Am Just a Reckless Child como faixa de abertura do disco. Concebida em uma medida própria de tempo, a canção ganha forma em meio a arranjos acústicos e delicadas paisagens instrumentais que se abrem para a inserção de novos elementos, entalhes percussivos e texturas poucas vezes antes percebidas em qualquer registro do artista. “Oh meu Deus / Eu estive procurando pelo seu amor / Eu andei pela escuridão / Sentia o medo de um homem perdido e desonesto / Oh doce Senhor / Leve-me à sua terra de esperança“, canta em um misto de louvor e libertação, como uma síntese breve do material entregue no restante da obra.

Parte dessa riqueza na composição do álbum vem da escolha de Frota em trabalhar com o produtor norte-americano Tom Biller. Mais conhecido pela engenharia de som em registros como o orquestral Late Registration (2005), de Kanye West, além de colaborar com nomes como Fiona Apple e Sean Lennon, o artista californiano sutilmente amplia tudo aquilo que Momo vem produzindo desde o início da carreira. São inserções precisas, como nas brechas de Diz a Verdade, e ruídos que se fazem notáveis, vide a atmosférica Mes yeux crevé.

Tamanho esmero na produção do álbum naturalmente força o ouvinte a revisitar o trabalho a fim de captar todas as nuances da obra. São ruídos eletrônicos e reverberações psicodélicas em Lillies For Eyes; na densa Món Neant, a percussão labiríntica que faz lembrar o cuidado de Rodrigo Amarante no também sutil Cavalo (2013); na experimental Vida, sexta faixa do disco, vozes e melodias que encolhem e crescem a todo instante, indo do fado à música eletrônica em uma colorida trança de ideias. Canções sempre guiadas pelas possibilidades, estrutura que se completa pelo permanente refinamento dos versos, cuidado que se reflete até a derradeira Sereno Canto.

Feito para ser degustado, como toda grande obra de Momo, I Was Told to Be Quiet cresce como um registro menos imediatista em relação ao material entregue no antecessor Voá, com seus afoxés e versos crescentes, porém, encanta pela sutileza destacada de cada elemento. De fato, tudo parece pensado para confortar o ouvinte em uma cama de sensações, vozes e melodias puramente detalhistas, minúcia que se reflete tão logo o disco tem início, na já citada For I Am Just a Reckless Child, mas que ganha ainda mais destaque a cada novo movimento do artista no decorrer do trabalho.