"Morri de Raiva"

Ano: 2019
Selo: Sony Music
Gênero: Indie Rock, Rock Alternativo
Para quem gosta de: YMA, Alvvays e Hatchie
Ouça: Fred, Tristinha e Yas Queen
Nota: 8.4

Crítica | “Morri de Raiva”, BRVNKS

Em Morri de Raiva (2019, Sony Music), primeiro álbum de estúdio da cantora e compositora Bruna Guimarães, a BRVNKS, há espaço para tudo, menos para o amor. Produto das experiências, memórias recentes e conflitos que embalam o cotidiano de qualquer jovem adulto, o trabalho de apenas dez faixas se espalha em meio a versos angustiados que refletem com naturalidade a essência da artista goiana. “Sou uma pessoa muito irritada e brava. Tem várias faixas sobre ódio, frustração, preguiça e coisas que eu passo sendo mulher e tocando em banda“, respondeu em entrevista à Capricho, apontando a direção seguida em parte expressiva da obra.

Exemplo disso está em I Am My Own Man, oitava composição do disco. São versos rápidos que discutem cenas e acontecimentos reais, revelando a angústia do eu lírico frente ao comportamento machista de outros produtores e músicos. “Eu sou meu próprio homem / Eu tenho minha própria banda / Eu sou namorada de ninguém / Você não devia ser tão burro / Eu estou carregando a minha guitarra, você está cego?“, questiona enquanto guitarras e batidas aceleradas cobrem toda a superfície da canção, estrutura que se repete em músicas como I Hate All Of You e na já conhecida F.I.J.A.N.F.W.I.W.Y.T.B (Freedom Is Just a Name For What I Want You To Be).

Mesmo quando prova de temas intimistas, mergulhando em letras pessoais, como em Tristinha, Guimarães jamais perde o fôlego e a profunda honestidade na composição das letras. “Eu não gosto tanto de você / Não é minha culpa / Eu não deveria me importar / Eu pensei que estava apaixonada pela 15ª vez / Bem, eu não estava / E não é minha culpa“, canta em meio a guitarras carregadas de efeitos e melodias empoeiradas que apontam para o início dos anos 1990. Instantes de breve nostalgia que fazem lembrar o trabalho de veteranas da cena alternativa, como Liz Phair e Cat Power, ou mesmo nomes recentes, caso de Snail Mail.

Nada que se compare ao cuidado de Guimarães em Fred, segunda faixa do disco. “Suas palavras passam pela minha cabeça toda vez / Eu vou sonhar contigo esta noite / E agora, eu serei solitária“, desaba em meio a memórias sobre a morte precoce de um amigo. Um doloroso exercício de profunda entrega sentimental, conceito que se reforça com a faixa seguinte do disco, a já conhecida Don’t. Originalmente lançada como parte do EP Lanches, em 2016, a canção reflete a completa vulnerabilidade do eu lírico, detalhando versos ora consumidos pela dor, ora sufocados pela raiva — “Eu queria que você estivesse aqui para me fazer sentir quente / Eu posso entender se você não me ama de volta, mas eu te odeio por isso“.

Interessante perceber em Yas Queen, quarta composição do disco, um delicado respiro, como uma parcial fuga desse universo criativo. “Nós podemos fazer algumas massas e beber muitas cervejas / Algum dia eu saberei que você sempre esteve lá por mim / Talvez eu só precise manter meu coração limpo“, canta de forma leve, estrutura que se reflete na base ensolarada da canção, por vezes íntima do mesmo dream pop produzido por estrangeiros como Best Coast, Alvvays e Jay Som. A própria Snacks, faixa de encerramento do disco, reflete o mesmo cuidado, como um indicativo dos futuros trabalhos de BRVNKS.

Concebido em parceria com o produtor Edimar Filho, parceiro de longa data e amigo íntimo da cantora, Morri de Raiva segue exatamente de onde BRVNKS parou há três anos, durante o lançamento de Lanches. São letras angustiadas, instantes de profunda exaltação e forte carga emocional, proposta que naturalmente abraça uma parcela maior do público, efeito direto do lirismo agridoce e confessional que move o disco. Uma criativa colcha de retalhos conceituais que estreita a relação com diferentes exemplares da produção estrangeira, mas que carrega nos versos a força criativa e identidade particular de sua realizadora.



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