"Movediço"

Ano: 2019
Selo: Balaclava Records
Gênero: Experimental, Pós-Rock, Jazz
Para quem gosta de: Mahmed e ruído/mm
Ouça: EsquinaChama e Canindu
Nota: 8.0

Crítica | “Movediço”, Meneio

Sem pressa, as canções de Movediço (2019, Balaclava Records), segundo e mais recente álbum de estúdio da banda paulista Meneio, convidam o ouvinte a se perder em um universo marcado pelo permanente senso de transformação. São guitarras carregadas de efeitos, sintetizadores, vozes atmosféricas e batidas que mudam de direção a todo instante, tornando a experiência do público deliciosamente incerta. Um lento desvendar de ideias e temas instrumentais, como uma interpretação letárgica e ainda mais sensível do material entregue pelo grupo durante o lançamento do primeiro registro de inéditas da carreira, entregue há quatro anos.

Concebido em uma medida própria de tempo, Movediço é um trabalho que exige uma audição atenta até que seja totalmente absorvido pelo ouvinte. São camadas instrumentais, fragmentos de vozes e pequenas variações rítmicas que sintetizam o completo esmero da banda, hoje composta pelos músicos Jovem Palerosi (guitarra e samples), Eduardo Rodrigues (sintetizador e samples), Adeniran Balthazar (baixo) e Zé Guilherme Aquiles (bateria).

Perfeita representação desse profundo comprometimento estético ecoa com naturalidade logo na sequência de abertura do disco. De um lado, são as guitarras psicodélicas, texturas e sobreposições climáticas da inaugural EsquinaChama. No outro, a construção espaçada de Ciclotomia, música que não apenas dialoga com o trabalho produzido por gigantes do pós-rock na década de 1990, caso de Tortoise e Slint, como se aproxima de nomes recentes da nossa música, vide a forte similaridade com a obra da potiguar Mahmed.

Interessante notar que mesmo guiado pelo aspecto climático dos arranjos, Movediço cresce como uma obra de essência dinâmica, fluida. Exemplo disso está no ziguezaguear de ideias em Canindu. São pouco menos de seis minutos em que ruídos eletrônicos e guitarras mudam de direção a todo instante, convidando o ouvinte a se perder em um labirinto de formas abstratas. Mesmo a curtinha Palavras Afogadas, com um minuto de duração, encanta pela capacidade da banda em brincar com os detalhes.

Dos poucos momentos em que rompe com essa estrutura atmosférica, Palerosi e os parceiros de banda preservam o refinamento estético da obra, porém, avançando criativamente. É o caso da faixa de encerramento do disco, Chemtrail. Marcada pela bateria versátil de Aquiles, a canção rapidamente se perde em um ambiente de formas lisérgicas, cores e retalhos instrumentais. É como se o quarteto paulista resgatasse parte do material apresentado no último álbum de estúdio, porém, de forma delirante e louca.

Produto das ideias e experiências acumuladas pelos integrantes da banda nos últimos quatro anos, Movediço revela desde faixas que se resolvem em um curto intervalo de tempo (Hipnose-Regressão), até músicas que exigem o imediato retorno para uma completa absorção (Mudra). São variações instrumentais que naturalmente dialogam com diferentes representantes do gênero, porém, de forma sempre atualizada, mágica, como se do universo musical detalhado no primeiro álbum de estúdio, o quarteto paulista fosse capaz de avançar criativamente.