"R.Y.C."

Ano: 2020
Selo: Polydor / Anchor Point
Gênero: Pop Rock, Eletrônica, R&B
Para quem gosta de: Cashmere Cat e Flume
Ouça: I Don’t Think I Can Do This Again e Today
Nota: 6.5

Crítica | Mura Masa: “R.Y.C.”

Com a boa repercussão em torno do primeiro álbum de estúdio, registro que contou com duas indicações no Grammy de 2018, e a forte relação de proximidade com diferentes nomes da cena britânica, Alex Crossan, o Mura Masa, poderia facilmente investir na composição de um material cada vez mais acessível, pop, encontrando no conforto dos temas instrumentais e fórmulas radiofônicas um estímulo para um novo trabalho de inéditas. Entretanto, o artista inglês decidiu seguir o caminho oposto, mergulhando na produção de um repertório puramente instável, estímulo para as canções do recente R.Y.C. (2020, Polydor / Anchor Point).

Marcado pelo reducionismo dos elementos, ruídos e ambientações pouco usuais, cada uma das 11 faixas de R.Y.C. — sigla para Raw Youth Collage, algo como “Retrato Cru da Juventude” —, utiliza desse direcionamento instável como um estímulo para a poesia detalhada pelo artista e seus parceiros ao longo da obra. Trata-se de um documento melancólico das desilusões, medos e vivências de qualquer jovem adulto, conceito que tem sido testado pelo produtor desde o álbum anterior, mas que ganha ainda mais destaque dentro do presente disco.

Não por acaso, Crossan, antes restrito ao trabalho como produtor, assume parte expressiva das vozes que recheiam o disco. Exemplo disso está na introdutória No Hope Generation, uma das principais faixas do álbum. “O que eu devo fazer? / Eu sinto que alguém está de olho em mim / Eu tenho tanta merda para fazer, tenho bocas para alimentar / Olhando para a tela, tão sereno/ Deixe-me banhar minha mente em verde“, canta. São versos simples, rápidos, porém, sempre expressivos, estrutura que vai do caos cotidiano, ao isolamento e busca do eu lírico por conforto em meio a instantes de confessa lisergia.

O mesmo direcionamento existencialista acaba se refletindo durante toda a execução da obra. Do encontro com Clairo, no pop nostálgico de I Don’t Think I Can Do This Again (“Lembra quando costumávamos lutar? / Eu ficaria acordado a noite toda / Tentando deixar para trás / Mas foi realmente há muito tempo?”), passando pela breve interferência de Ned Green, no relato de ​A meeting at an oak tree, cada fragmento do disco gira em torno de memórias de um passado ainda recente, como uma tentativa clara de Mura Masa em transformar as próprias experiências no principal componente criativo do registro.

Claro que esse direcionamento particular em nenhum momento faz de R.Y.C. um álbum exageradamente hermético. É o caso de Live Like We’re Dancing, música que preserva o lirismo intimista da obra, porém, aporta em temas e referências dançantes, efeito da interferência direta da conterrânea Georgia, artista que lançou há poucas semanas o bom Seeking Thrills (2020). Mesmo o reducionismo de Today, bem-sucedida colaboração com Tirzah, parece pensada para atrair a atenção do ouvinte, efeito direto do lirismo agridoce, vozes cíclicas e toda a fina tapeçaria instrumental que cobre a superfície da faixa.

O grande problema de R.Y.C. acaba ficando por conta da decisão de Mura Masa em não abraçar um gênero ou sonoridade específica. Do momento em que tem início, na autointitulada faixa de abertura, até alcançar a derradeira ​(nocturne for strings and a conversation), cada fragmento do disco parece apontar para uma direção específica, tornando a experiência do ouvinte confusa, inviabilizando qualquer tentativa de apego ao disco. Dessa forma, o que poderia se transformar em um evidente exercício de amadurecimento criativo, produto das inquietações de Crossan, resulta em uma obra instável. Canções marcadas pela riqueza dos versos, porém, musicalmente desequilibradas.