"Nada Ficou No Lugar"

Ano: 2019
Selo: Sony Music
Gênero: MPB, Pop, Samba
Para quem gosta de: Marisa Monte e Vanessa da Mata
Ouça: Esquadros, Âmbar e Mentiras
Nota: 7.5

Crítica | “Nada Ficou No Lugar”, Adriana Calcanhotto

A dramaticidade explícita na voz de Johnny Hooker aponta a direção seguida em grande parte das 18 músicas produzidas para a coletânea Nada Ficou No Lugar (2019, Sony Music). Delicado passeio por algumas das principais faixas entregues por Adriana Calcanhotto em quase três décadas de carreira, o trabalho que vai da sentimental Mentiras, música originalmente gravada no álbum Senhas (1992), ao doce sofrimento Inverno, resgatada do clássico A Fábrica do Poema (1994), não apenas sintetiza a essência da cantora e compositora gaúcha, como serve de vitrine para algumas das principais vozes da nova música brasileira.

Organizado por Andrea Franco e DJ Zé Pedro, o trabalho rapidamente se divide em dois blocos específicos de canções. No primeiro deles, inaugurado pelo R&B agridoce de Vambora, música assumida pela cantora Priscila Tossan, a clara tentativa do interprete em adaptar a obra de Calcanhotto ao próprio universo musical. Vem daí a bem-sucedida adaptação do coletivo baiano OQuadro para Negros, música que amplia com naturalidade a temática racial discutida na letra da canção, como se composta pelo próprio grupo. Assumida pelas guitarras e batidas espaçadas de Mahmundi, Cariocas é outra que se molda de maneira explícita, dialogando com o pop empoeirado e tropical de Marcela Vale.

O mesmo refinamento criativo se reflete na sequência assumida por Jaloo, Letrux e Arthur Nogueira, próximo ao encerramento do disco. Enquanto a nova versão para Esquadros aponta para o universo criativo detalhado pelo músico paraense em #1 (2015), a provocativa adaptação de Letícia Novaes para Já Reparou? poderia facilmente ser apresentada como parte do álbum Letrux Em Noite de Climão (2017). Já Nogueira optou por se distanciar do próprio universo criativo, fazendo de Cantada (Depois de Ter Você), colaboração com o conterrâneo Pratagy, um pop refinado, leve e deliciosamente atmosférico.

No segundo bloco de canções, a clara tentativa dos artistas em preservar a identidade de Calcanhotto, reciclando melodias e fórmulas consolidadas pela artista gaúcha. Exemplo disso está na delicada adaptação de Illy para a música Pelos Ares. Originalmente lançada como parte do álbum Cantada (2002), a faixa pouco se distancia da versão original, confortando o ouvinte em uma cama de versos tristes e arranjos diminutos, estrutura que valoriza cada novo verso lançado pela cantora baiana. A mesma economia na composição dos arranjos se reflete com naturalidade na adaptação de Mãeana para O Amor Me Escolheu, faixa composta por Calcanhotto, porém, registrada em estúdio apenas pelo cantor Paulo Ricardo (RPM) no álbum que leva o título da canção.

Outra preciosidade resgatada especialmente para o trabalho é Âmbar, faixa-título do álbum lançado por Maria Bethânia em 1996, porém, gravada por Calcanhotto somente em uma versão ao vivo, durante a apresentação no 26º Prêmio da Música Brasileira em homenagem à cantora baiana. Na versão assumida por Ava Rocha, versos melancólicos que se espalham em meio a pianos e entalhes minimalistas. São melodias tímidas, sempre precisas, alicerce para a voz forte que destaca os versos lançados pela cantora carioca – “Tá tudo aceso em mim / Tá tudo assim tão claro / Tá tudo brilhando em mim“.

Colorido mosaico de ideias, Nada Ficou No Lugar vai do pop eletrônico de Alice Caymmi (Metade) às rimas de Baco Exu do Blues (Senhas) sem necessariamente parecer uma obra confusa. Mesmo entre instantes de pequenos desequilíbrios, como no pop plástico de Pode Se Remoer, interpretada por Preta Gil, e na versão simplista de Duda Beat para Seu Pensamento, evidente é o cuidado na escolha do repertório e composição dos arranjos. Uma clara evolução quando próxima de outras coletâneas orquestradas por DJ Zé Pedro, como em Agenor – As Canções de Cazuza (2013) e Coitadinha Bem Feito – As Canções de Ângela Ro Ro (2013).