"Não Há Abismo Em Que o Brasil Caiba"

Ano: 2019
Selo: Deck Disc
Gênero: MPB, Samba, Folk
Para quem gosta de: Gilberto Gil e Jorge Ben Jor
Ouça: Marielle Franco e Segredo
Nota: 8.6

Crítica | “Não Há Abismo Em Que o Brasil Caiba”, Jorge Mautner

Ouvir as canções de Não Há Abismo Em Que o Brasil Caiba (2019, Deck Disc), primeiro trabalho de inéditas de Jorge Mautner em mais de uma década, evoca uma doce sensação de acolhimento. É como chegar em casa depois de uma longa e exaustiva viagem. O reencontro com um velho amigo, sempre cheio de histórias e experiências a serem compartilhadas. Estranho perceber isso justamente em um dos trabalhos em que a essência política e crueza dos versos assinados pelo músico carioca pareça destacada. Um misto de conforto e constante provocação, estrutura que orienta a experiência do ouvinte durante todo o desenvolvimento da obra.

Entre versos semi-declamados, Mautner canta sobre um Brasil ora fantástico e esperançoso, ora realista e perturbador. Composições montadas a partir de figuras religiosas, seres mitológicos e, principalmente, pessoas reais. São nomes como Marielle Franco, Anderson Gomes, José Bonifácio, Dona Catulina e Joaquim Nabuco. Personagens que surgem e desaparecem a todo instante, ampliando o campo de atuação da obra, sempre centrada no forte discurso político do compositor.

Uma força furiosa me impele a gritar / Com os nervos à flor da pele: é preciso exterminar a doença / Mental, física e assassina / Do racismo, do anti-feminismo e do neonazismo“, reflete logo nos primeiros minutos da canção que leva o nome de Marielle Franco (1979 – 2018). A mesma força na composição dos versos ecoa com naturalidade em Bang Bang, faixa em que discute passado e presente de forma sempre esperançosa, reforçando elementos ideológicos de Mautner, historicamente ligado ao partido comunista. “É preciso agir agora / Para fabricar a concórdia / Por favor me entenda / Com distribuição de renda, piedade / Compaixão, igualdade e misericórdia“, canta em meio a entalhes acústicos e percussão delicadamente trabalhada.

Tamanho refinamento na formação dos arranjos vem da forte interferência dos músicos da Tono na produção do trabalho. Parceiros do artista desde 2013, Ana Claudia Lomelino (voz), Bem Gil (guitarra), Bruno Di Lullo (baixo e sintetizador), Rafael Rocha (bateria e percussão) não apenas garantem consistência ao registro, assumindo parte expressiva das melodias e temas instrumentais, como se revezam na composição dos versos e vozes que recheiam o disco. É o caso de Passado, música composta por Mautner e Di Lullo, porém, assumida integralmente pela voz doce de Lomelino.

Síntese desse profundo comprometimento estético entre o músico e seus parceiros de estúdio cresce na ensolarada Segredo. São arranjos e versos sorridentes, como se do meio do caos conceitual que move o disco, Mautner estabelecesse um necessário respiro criativo. “Eu preciso captar / As batidas do meu coração / Pra transmitir este som pelos tambores / Carinho, paixão e alegria / Toco sozinho ou toco com a banda Tono“, cresce a letra da canção. Mesmo em O Diabo, composição em que reflete sobre as diferentes faces do demônio, assobios e instrumentos cuidadosamente encaixados se projetam de forma a confortar o ouvinte.

Com título extraído de uma frase do filósofo português Agostinho da Silva (1906 – 1994), fragmentos instrumentais que vão do rock (Oy Vey, Oy Vey) ao afoxé (Veneno), passagens bíblicas (Ruth Rainha Cigana) e pequenos retalhos intimistas (Destino), Não Há Abismo Em Que o Brasil Caiba nasce como um passeio torto pela mente de Jorge Mautner. Longe de qualquer traço de previsibilidade, cada composição do disco se abre de forma a revelar um mundo de pequenas possibilidades, estrutura que não apenas dialoga com alguns dos principais trabalhos do músico, como reflete a imagem de um artista em pleno processo de transformação.



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