"New Breed"

Ano: 2019
Selo: Local Action / Our Dawn Entertainment
Gênero: R&B, Pop, Soul
Para quem gosta de: Kelela, SZA e Jorja Smith
Ouça: New Breed, Sauce e We, Diamonds
Nota: 8.0

Crítica: “New Breed”, Dawn Richard

Mesmo em um universo de artistas cada vez mais formatados, talvez visando atingir o grande público com maior naturalidade, Dawn Richard segue uma trilha particular, quase isolada. Cada vez mais distante do som produzido em parceria com as integrantes do Danity Kane, com quem lançou três álbuns de estúdio – Danity Kane (2006), Welcome to the Dollhouse (2008) e DK3 (2014) –, a cantora e compositora norte-americana perverte o R&B de forma assumidamente conceitual. Frações poéticas e instrumentais que transportam a essência da música negra para um território parcialmente novo, remodelado.

Exemplo disso está nas canções que recheiam o quinto e mais recente registro de inéditas de Richard, New Breed (2019, Local Action / Our Dawn Entertainment). Passo além em relação ao material entregue pela artista na “Trilogia do Coração”, sequência que contou com os ótimo Goldenheart (2013), Blackheart (2015) e Redemptionheart (2016), o presente álbum preserva a essência provocativa dos antigos trabalhos da cantora, porém, delicadamente se abre para construção de um som menos hermético, direcionamento que se reflete até a faixa de encerramento da obra, ​Ketchup and Po’Boys, música que parece saída do último disco de Ariana Grande, Sweetener (2018).

Síntese dessa transformação ecoa com naturalidade logo na faixa-título do álbum. Concebida em meio a sintetizadores cósmicos, batidas tortas e colagens de vozes extraídas de uma entrevista – “Eu acho mulheres atraentes. Eu acho que se eu não fizer isso, eu não me acharia atraente” –, a canção lentamente se transforma em uma exaltação feminista marcada pela conquista e ferocidade do eu lírico. “Foda-se os vestidos e saltos … Eu sou um leão / Eu sou mulher / Nada pode me parar / Eu faço o que eu quero“, canta com uma força comparável ao trabalho de Solange em A Seat at The Table (2016).

A mesma entrega e discurso minucioso volta a se repetir de forma ainda mais expressiva em We, Diamonds, nona faixa do disco. Trata-se de uma reflexão sobre as conquistas e o peso do machismo enfrentado diariamente por de qualquer mulher negra. “Não é um elogio quando você duvida do meu sucesso de uma maneira educada / Eu estou acostumada a ser prejudicada, afinal, meninas negras com mente e uma causa são sufocadas por clichês e papo furado / Mas nós somos uma nova raça“, canta enquanto pianos e batidas se entrelaçam sem pressa, lembrando um encontro entre SZA e Corinne Bailey Rae.

Claro que nem todas as composições do disco partem do mesmo discurso político como principal alicerce criativo. É o caso de Jealousy, música em que utiliza de um antigo relacionamento para discutir as próprias inquietações. Em Sauce, faixa seguinte, uma sequência de versos marcados pela lascívia de Richard. “É fim de semana e eu sou gananciosa / Eu fui uma boa menina a semana toda / Então eu posso sujar os lençóis de sexta a domingo, sem pausas“, canta de forma provocativa. O mesmo aspecto intimista volta a se repetir em outros momentos da obra. É o caso de Spaces, música guiada pela força das batidas, como um parcial regresso ao universo criativo detalhado em Redemptionheart.

Meio termo entre as composições que embalam o trabalho de Richard no Danity Kane e toda a sequência de obras iniciadas com o primeiro EP em carreira solo, Armor On (2012), New Breed revela ao público uma artista transformada, porém, ainda íntima da própria discografia. Um misto de passado e presente que direciona o trabalho da cantora tanto na composição estética da obra – inspirada em elementos indígenas e da cultura de Nova Orleães, onde nasceu e cresceu –, como no completo amadurecimento que embala a formação dos versos.



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