"Ghosteen"

Ano: 2019
Selo: Bad Seeds
Gênero: Rock Alternativo, Eletrônica
Para quem gosta de: Tom Waits e PJ Harvey
Ouça: Bright Horses e Hollywood
Nota: 9.0

Crítica | Nick Cave & The Bad Seeds: “Ghosteen”

Imersa em melodias atmosféricas e arranjos sempre precisos, a poesia de Nick Cave sutilmente oculta uma força descomunal. Em Ghosteen (2019, Bad Seed), terceiro e último capítulo da melancólica trilogia iniciada em Push the Sky Away (2013), cada fragmento do disco parece pensado para se relacionar com o que há de mais doloroso nas experiências particulares e conflitos sentimentais de qualquer indivíduo. São frações poéticas que discutem a efemeridade da vida, desilusões amorosas e, principalmente, nossa relação com a morte, conceito que tem sido explorado pelo cantor e compositor australiano desde o material entregue no antecessor Skeleton Tree (2016), obra fortemente influenciada pela morte precoce de um de seus filhos.

Todo mundo está perdendo alguém / É um longo caminho para alcançar a paz de espírito / E eu estou apenas esperando agora, pela minha hora / E eu estou apenas esperando agora, pela paz que está por vir“, confessa na derradeira Hollywood, canção em que utiliza de referências a um conto budista para discutir não apenas a morte do próprio filho, mas a de outras pessoas próximas, como o músico Conway Savage (1960 – 2017), integrante do The Bad Seeds com quem vinha colaborando desde o início dos anos 1990. Um lento desvendar de ideias e experiências sentimentais que machuca e conforta na mesma proporção, experiência que reflete durante toda a execução da obra.

E isso pode ser percebido logo nos primeiros minutos do disco, na composição amarga de Bright Horses. Dotada de um lirismo único, a canção se espalha em meio a cenários descritivos, trechos puramente metafóricos e o constante desejo de reencontrar aquilo que foi perdido, conceito reforçado nos momentos finais da canção. “Eu posso ouvir o apito tocando, eu posso ouvir o rugido poderoso / Eu posso ouvir os cavalos empinando nos pastos do Senhor / O trem está chegando e eu estou parado aqui para ver / Ele está trazendo meu bebê de volta para mim“, canta. São versos consumidos pela dor, ainda que sóbrios, estrutura que se completa pela fina inserção de arranjos de cordas, pianos e vozes em coro, como uma interpretação ainda mais sensível do material entregue em Skeleton Tree.

Parte dessa permanente constante sensação de sufocamento e angústia causada pela obra nasce da escolha do artista em trabalhar o álbum como uma obra única, utilizando de um limitado conjunto de temas atmosféricos. São delicadas paisagens instrumentais, sempre precisas, conceito que parte da utilização de sintetizadores e pianos orquestrais como um estímulo para a inserção das vozes. Canções como Spinning Song e Galleon Ship em que Cave e seus parceiros de banda, Warren Ellis, Thomas Wydler, Martyn Casey, Jim Sclavunos e George Vjestica, parecem dar voltas em torno de uma base econômica, alternando entre instantes de forte contemplação, vozes instrumentais e ruídos eletrônicos.

Interessante notar que mesmo partindo desse direcionamento climático, Ghosteen está longe de parecer uma obra redundante ou minimamente arrastada. Primeiro álbum duplo de Nick Cave & The Bad Seeds desde o elogiado Abattoir Blues / The Lyre of Orpheus (2004), o registro utiliza dessa composição minimalista como um estímulo para a inserção de pequenos detalhes que rapidamente capturam a atenção do público, cada vez mais atraído pela obra. São elementos percussivos, como na crescente Leviathan, o misto de canto sacro e experimentalismo eletrônico de Galleon Ship, e a própria poesia cíclica de Waiting For You, canção tratada como um mantra doloroso, naturalmente íntimo do ouvinte.

Obra de imersão, como um convite a se perder em um universo próprio do músico australiano, conceito reforçado logo na imagem de capa do disco, trabalho do artista plástico Tom DuBois, Ghosteen encontra na dor um precioso elemento de transformação pessoal e imediato diálogo com o ouvinte. Trata-se de uma clara reflexão sobre as próprias inquietações, medos e toda a sequência de acontecimentos que bagunçaram a vida do cantor nos últimos anos. Canções montadas a partir de fragmentos literários (Hollywood), instantes de doce lirismo (Sun Forest) ou mesmo versos dolorosamente particulares (Bright Horses, Waiting For You), como um delicado e sempre atrativo passeio pela mente inquieta de Cave.



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