"Carnage"

Ano: 2021
Selo: Goliath
Gênero: Rock, Rock Alternativo
Para quem gosta de: Tom Waits e PJ Harvey
Ouça: White Elephant e Shattered Ground
Nota: 8.6

Crítica | Nick Cave & Warren Ellis: “Carnage”

Poucos artistas têm vivido um período tão fértil e bem-sucedido quanto Nick Cave. Passado o breve tropeço no mediano Nocturama (2003), o cantor e compositor norte-americano vem se revezando em uma sequência de obras marcadas pela força das canções, versos detalhistas e profunda entrega sentimental. Um evidente exercício de domínio criativo vai da dobradinha composta pelo paralelo Grinderman à trilogia apresentada em colaboração com os parceiros de banda no Bad Seeds, caso de Push the Sky Away (2013), Skeleton Tree (2016) e, mais recentemente, Ghosteen (2019), trabalho que revelou músicas importantes como Bright Horses, Night Raid e Hollywood.

Esse mesmo refinamento pode ser percebido nas canções de Carnage (2021, Goliath). Sequência ao material entregue pelo cantor no ainda recente Idiot Prayer (2020), registro em que se apresenta de forma solitária no Alexandra Palace, em Londres, o trabalho concebido em parceria com Warren Ellis, principal parceiro de composição de Cave há mais de duas décadas, concentra o que há de melhor na obra de cada colaborador. São letras existencialistas que se espalham em meio a camadas de sintetizadores e orquestrações sublimes, como uma extensão natural de tudo aquilo que os dois artistas têm incorporado desde a mudança de sonoridade em Skeleton Tree.

E isso se reflete com naturalidade logo nos primeiros minutos da obra, na introdutória Hand of God. Inaugurada em meio a pianos minimalistas, a faixa rapidamente se transforma em um turbilhão pontuado por ruídos eletrônicos e vozes trabalhadas como um instrumento torto. “Vou nadar até o meio, e nunca mais subir / Deixe o rio lançar seu feitiço em mim / Mão de Deus, mão de Deus, mão de Deus, mão de Deus“, repete em meio a versos em que discute a passagem do tempo, livre arbítrio e morte, conceito que há tempos embala as criações do músico australiano, mas que ganhou novo significado com a morte precoce de um de seus filhos, Arthur, há pouco mais de cinco anos, durante uma queda acidental em um desfiladeiro.

Consumido por uma permanente sensação de despedida, Carnage faz de cada composição um objeto precioso. Instantes em que Cave utiliza dos próprios tormentos como importante componente de diálogo com o ouvinte, proposta que se reflete com bastante naturalidade na própria faixa-título do trabalho. “Eu sempre pareço estar dizendo adeus / E rolando pelas montanhas como um trem“, canta em tom melancólico, reforçando a angústia presente em grande parte da obra. São canções como Shattered Ground (“Onde quer que você esteja eu estou / E onde quer que você esteja, bem, vou segurar sua mão novamente“) e Old Times (“Como nos velhos tempos, querida, como nos velhos tempos / Eu não vou voltar dessa vez“), em que alterna entre momentos de dor e libertação pessoal, como uma soma de tudo aquilo que o músico tem vivido nos últimos anos.

Nada que se compare ao material entregue em White Elephant. Distante do universo particular de Cave, a canção ganha forma em meio a reflexões do artista sobre o atual cenário político, repressão policial, violência e sexo, estrutura que ganha ainda mais destaque na fina tapeçaria instrumental que envolve os versos lançados pelo cantor. São pouco mais de seis minutos em que a dupla parte de uma base eletrônica para incorporar arranjos de cordas e vozes em uma estrutura quase religiosas, direcionamento que muito se aproxima ao material entregue em obras como The Good Son (1990), porém, de forma ainda mais detalhista, como uma evolução natural de tudo aquilo os dois artistas têm explorado em diferentes trilhas sonoras ao longo das últimas duas décadas.

O mais interessante talvez seja notar que tamanho esmero parta justamente de uma obra concebida em um curtíssimo intervalo de tempo. Produzido durante o período de isolamento social, o trabalho teve grande parte de suas faixas finalizadas logos nos primeiros dias de gravação. “Foi um processo acelerado de intensa criatividade, as oito canções estavam lá, de uma forma ou de outra, nos primeiros dois dias e meio“, comentou Ellis no texto de apresentação da álbum. E isso se reflete na forma como cada composição serve de passagem para a música seguinte. Da evidente aproximação conceitual explícita nos versos, passando pelo tratamento dado aos arranjos, tudo soa como um acumulo das experiências, medos e emoções compartilhadas por dois artistas intensamente conectados.

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