"Telas"

Ano: 2020
Selo: Other People
Gênero: Experimental, Música Ambiente, Eletrônica
Para quem gosta de: Leon Vynehall e Darkside
Ouça: Telahora e Telahumo
Nota: 7.8

Crítica | Nicolas Jaar: “Telas”

Isolado por conta da pandemia de Covid-19, Nicolas Jaar tem aproveitado o período de reclusão para investir em uma série de registros autorais. Em um intervalo de poucos meses, o produtor nova-iorquino foi das pistas de dança, no curioso 2017–2019 (2020), último disco pelo paralelo Against All Logic, ao experimentalismo eletrônico de Cenizas (2020), primeiro álbum em carreira solo desde o elogiado Sirens (2016). Instantes em que o artista de ascendência chilena parece testar os próprios limites criativos, conceito que volta a se repetir com a chegada de Telas (2020, Other People), mais recente trabalho de inéditas do multi-instrumentista.

Misto de sequência e fina desconstrução do material entregue durante o lançamento de Cenizas, Telas cresce como o trabalho mais abstrato e conceitualmente desafiador de Jaar. Dividido em quatro blocos específicos de canções, o registro diz a que veio logo nos primeiros minutos, na delirante Telahora. São pouco mais de 16 minutos em que o ouvinte é convidado a se perder em meio a incontáveis camadas instrumentais, texturas jazzísticas e temas orientais que parecem saídos do curioso Pomegranates (2015), espécie de trilha sonora imaginária produzida para o filme A Cor da Romã, trabalho originalmente lançado em 1969 e dirigido pelo cineasta soviético Sergei Parajanov.

Dentro desse cenário marcado pelas possibilidades, cada composição do disco parece transportar o ouvinte para um território diferente. Exemplo disso acontece na delirante Telencima, segunda faixa do disco. Inaugurada em meio a fragmentos de vozes, a composição parte de uma base minimalista, cresce em meio a sintetizadores atmosféricos e texturas eletrônicas trabalhadas em uma estrutura cósmica. É como se Jaar estreitasse a relação com a obra de veteranos como Ashra e Popol Vuh, efeito direto das incontáveis camadas instrumentais e colagens abstratas que servem de sustentação ao material.

Mais à frente, em Telahumo, o mesmo refinamento estético, porém, partindo de um novo direcionamento temático. Faixa mais sombria do disco, a canção avança em meio a ambientações metálicas e sobreposições ruidosas que fazem lembrar do som produzido por The Haxan Cloak e outros nomes recentes da dark ambient. Um lento desvendar de ideias e experiências sensoriais, como se diferentes obras fossem condensadas dentro de um único registro. O próprio uso de respiros fantasmagóricos ao longo da canção parece contribuir para esse resultado. Momentos de breve silenciamento que antecedem a explosão de ruídos e formas sintéticas, sempre inexatas.

Com Telallás como faixa de encerramento do disco, Jaar estabelece um regresso conceitual ao mesmo território criativo detalhado em Cenizas. São ambientações sintéticas e fragmentos instrumentais tratados de forma sempre reducionista, como uma fuga do material entregue minutos antes, em Telahumo. Claro que essa sutil mudança de direção não interfere na entrega de um material tão detalhista quanto o restante da obra. Pouco menos de 13 minutos em que somos convidados a mergulhar em um labirinto de formas inexatas, sempre econômicas, como retalhos melódicos e rítmicos que parecem dançar pela cabeça do ouvinte.

Desafiador e detalhista, como tudo aquilo que Jaar tem produzido desde os primeiros trabalhos de estúdio, Telas mostra um novo lado das criações do produtor nova-iorquino. Do momento em que tem início, em Telahora, até alcançar a derradeira Telallás, cada fragmento do disco parece pensado para jogar com a experiência do ouvinte. São incontáveis camadas instrumentais que surgem e desaparecem durante toda a execução da obra. Fragmentos de vozes e captações tão estridentes quanto acolhedoras, proposta que faz do presente álbum um novo e bem-sucedido exercício autoral dentro da discografia do artista.