"Goons Be Gone"

Ano: 2020
Selo: Drag City
Gênero: Art Rock, Noise Rock, Indie Rock
Para quem gosta de: Liars, Japandroids e Preoccupations
Ouça: War Dance e Head Sport Full Face
Nota: 7.8

Crítica | No Age: “Goons Be Gone”

É impressionante pensar que mesmo perto de completar 15 anos de carreira, uma banda como o No Age, dotada de identidade musical tão específica e poucos instrumentos, continue tão relevante e ainda inventiva quanto nos primeiros registros autorais. Formado em 2005, na cidade de Los Angeles, Califórnia, o projeto comandado por Randy Randall (guitarra) e Dean Allen Spunt (bateria, voz) segue em meio a camadas de ruídos, instantes de doce experimentação e batidas trabalhadas de forma sempre inexata. Um verdadeiro labirinto sonoro que contribuiu para o surgimento de obras importantes, como Nouns (2008) e Everything in Between (2010), mas que ganha novo destaque em Goons Be Gone (2020, Drag City).

Sequência ao bem-recebido Like A Haircut (2018), o trabalho alcança um ponto de equilíbrio entre o experimentalismo que embala os primeiros registros de estúdio e a sonoridade acessível incorporada em Everything in Between. São faixas que apontam para a obra de veteranos como Minor Threat e Sonic Youth, porém, estabelecem na propositada economia dos elementos o princípio de um novo direcionamento estético, estrutura que orienta a experiência do ouvinte até a derradeira Agitating Moss.

Quinta música do álbum, War Dance sintetiza com naturalidade parte dessa experiência. Inaugurada em meio a batidas rápidas e guitarras carregadas de efeito, a canção parte de uma estrutura essencialmente simples para mergulhar em um ambiente caótico. São camadas de ruídos e a bateria que parece ampliada a cada novo movimento da dupla. Não por acaso, a canção seguinte do disco, Toes In The Water, se revela de forma ainda mais inexata. São ambientações etéreas, por vezes psicodélicas, como um parcial regresso ao som que embala a coletânea Weirdo Rippers (2007), trabalho que apresentou a banda a uma parcela maior do público.

É partindo desse mesmo direcionamento urgente que a dupla californiana orienta grande parte das faixas. São músicas como Head Sport Full Face, Turned To String e Feeler, em que Randall e Spunt impedem que o ouvinte de respirar, mergulhando em uma seleção de guitarras e batidas rápidas, sempre frenéticas. Um turbulento exercício criativo que tem início logo na introdutória Sandalwood, mas que acaba se refletindo durante toda a execução da obra, proposta que garante ritmo ao álbum e impede o público de mergulhar em uma previsível zona de conforto, esmero que se reflete em alguns dos principais trabalhos da banda.

Entretanto, mesmo nesse cenário marcado pela aceleração dos elementos, curioso perceber em músicas como A Sigh Clicks a passagem para um novo território criativo. Trata-se de uma faixa regida pelo mesmo som torto do restante da obra, porém, de forma contida, convidando o ouvinte a flutuar em meio a ondulações delirantes e vozes tratadas como um instrumento. Mesmo Smoothie, longo nos primeiros minutos do disco, assume essa mesma formatação contida, lembrando as canções historicamente assumidas por Kim Gordon nos momentos de maior calmaria do Sonic Youth. Instantes em que a dupla norte-americana preserva a própria identidade criativa, porém, se permite avançar dentro de estúdio.

Registro de possibilidades, como um resumo involuntário das principais referências criativas, experimentos e caminhos percorridos pela banda desde o início da carreira, Goons Be Gone talvez seja o trabalho que mais se aproxime de uma nova parcela de ouvintes, efeito direto da pluralidade de ritmos e estruturas adotadas durante toda a execução da obra. Canções que vão da calmaria ao caos em um intervalo de poucos segundos, jogando com a experiência do público de forma sempre inexata. Um precioso exercício de apresentação aos não iniciados na obra do No Age, mas que em nenhum momento exclui antigos apreciadores da dupla californiana.