"No Geography"

Ano: 2019
Selo: Virgin / EMI
Gênero: Eletrônica, Dance, Neo-Psicodelia
Para quem gosta de: Basement Jaxx e Daft Punk
Ouça: Got To Keep On e The Universe Sent Me
Nota: 8.0

Crítica | “No Geography”, The Chemical Brothers

No final da década de 1990, Tom Rowlands e Ed Simons viviam um dos períodos mais inventivos e férteis de toda a trajetória como The Chemical Brothers. Fortemente influenciados pela neo-psicodelia que parecia orientar parte expressiva da produção inglesa, a dupla original de Manchester, Inglaterra, revelou ao público preciosidades como Dig Your Own Hole (1997) e Surrender (1999), ainda hoje, dois dos exemplares mais significativos da cena eletrônica daquele momento. Um criativo catálogo de experiências lisérgicas que ainda contou com a colaboração de nomes como Noel Gallagher, Beth Orton e Bobby Gillespie.

Satisfatório perceber em No Geography (2019, Virgin / EMI), nono álbum de estúdio na carreira da dupla inglesa, um parcial regresso ao mesmo universo criativo detalhado há duas décadas. Da delirante imagem de capa, com um tanque de guerra avançando em um território dominado pelas cores, passando pela construção das batidas e minucioso uso da voz, cada elemento do disco parece contribuir para o curioso ambiente temático que serve de sustento ao trabalho.

Concebido em uma estrutura crescente, como se cada composição do disco servisse de passagem para a faixa seguinte, No Geography funciona tanto no isolamento de suas canções, como na totalidade de uma obra única. De fato, do momento em que tem início, em Eve of Destruction, até alcançar a derradeira Catch Me I’m Falling, perceba como é difícil escapar da trama de ambientações eletrônicas, batidas e vozes sampleadas que a dupla utiliza de forma inteligente para capturar a atenção do público.

O mais interessante talvez seja perceber que mesmo conceitualmente amplo, No Geography segue o caminho oposto ao material entregue pela dupla no antecessor Born In The Echoes (2015). Enquanto no álbum passado os produtores dependiam de forte interferência de nomes como Beck, Cate Le Bon e St. Vincent, com o presente registro, o duo inglês lida com menos, estreitando a relação com apenas duas colaboradoras, a rapper japonesa Nene e a norueguesa AURORA. O resultado desse forte comprometimento estético está na produção de uma obra que aponta para diferentes direções criativas, porém, preserva a própria identidade.

Exemplo disso está na sequência formada por Got To Keep On, Gravity Drops e The Universe Sent Me. São pouco menos de 15 minutos em que a dupla arrasta o ouvinte para as pistas, flerta com o uso de temas eletrônicos originalmente testados por Aphex Twin – vide o material entregue em Richard D. James Album (1996) e Windowlicker (1999) –, e finaliza em um exercício de profunda entrega emocional assumido por AURORA. Fragmentos de vozes e batidas que sintetizam o forte comprometimento criativo dos dois produtores.

Entre instantes de parcial leveza, como no pop etéreo de Catch Me I’m Falling, e faixas que rapidamente convidam o ouvinte a dançar, caso de MAH e Free Yourself, Rowlands e Simons revelam ao público uma obra que tanto preserva a essência criativa do The Chemical Brothers na década de 1990, como se permite provar de novas possibilidades. Um misto de passado e presente que sintetiza a rica herança musical da dupla, porém, se permitindo provar de novas possibilidades a todo instante.



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