"Motherhood"

Ano: 2020
Selo: Joyful Noise Recordings
Gênero: Rock Alternativo, Shoegaze, Dream Pop
Para quem gosta de: A Sunny Day In Glasgow e St. Vincent
Ouça: Four e Nothing Will Hurt
Nota: 8.0

Crítica | No Joy: “Motherhood”

Um dos traços mais significativos e talvez problemáticos da nova frente de artistas inclinados a revisitar o som de veteranos do dream pop/shoegaze, como Cocteau Twins e My Bloody Valentine, está na incapacidade de furar o bloqueio das guitarras. São obras sempre soterradas por blocos imensos de distorção, ruídos e efeitos quase caricaturais, como um limitado conjunto de ideias que se repete exaustivamente. Satisfatório perceber nas criações assinadas por Jasamine White-Gluz, do No Joy, um repertório que a todo momento homenageia os clássicos, mas que em nenhum momento utiliza de fórmulas prontas ou se permite trilhar pelo caminho mais fácil.

E isso pode ser percebido com naturalidade em cada uma das canções de Motherhood (2020, Joyful Noise Recordings). Quarto e mais recente álbum da artista canadense, o registro co-produzido em parceria com Jorge Elbrecht (Ariel Pink, Wild Nothing), mostra a capacidade de White-Gluz em testar os próprios limites dentro de estúdio. São canções essencialmente versáteis, tortas e concebidas a partir da fina sobreposição dos elementos, como se diferentes obras e abordagens criativas fossem cuidadosamente fragmentadas e remontadas de forma sempre irregular.

Não por acaso, White-Gluz inaugura o disco com a versátil Birthmark. Enquanto os versos da canção se aprofundam em questões sentimentais (“Fique com o que sobrou se você ama alguém / Ame alguém com suas mãos“), musicalmente, a artista canadense quebra a faixa em diferentes blocos conceituais. Com as guitarras posicionadas em segundo plano, a percussão assume um posto de destaque, servindo de base para a inserção dos sintetizadores e vozes sempre tratadas como um instrumento, proposta que naturalmente aponta para o trabalho de veteranas como Elizabeth Fraser e Rachel Goswell, porém, dentro de uma linguagem particular.

É partindo justamente dessa mesma estrutura que White-Gluz orienta a experiência do ouvinte durante toda a execução do álbum. Instantes em que a cantora se concentra na produção de faixas deliciosamente acessíveis, como Nothing Will Hurt, porém, preservando o caráter experimental da obra. O resultado desse processo está na entrega de um repertório marcado pela completa imprevisibilidade dos elementos. Canções que vão do uso de temas orquestrais ao peso das guitarras, do reducionismo dos arranjos à criativa colagem de ideias, marca de músicas como as delirantes Fish e Dream Rats.

Nada que se compare ao material entregue em Four. Uma das primeiras composições do disco a serem apresentadas ao público, a faixa reflete a completa versatilidade de White-Gluz, transitando em meio a variações instrumentais que passeiam por diferentes campos da música de forma sempre imprevisível. São fragmentos de vozes, retalhos instrumentais que evocam o soul/funk dos anos 1970 e um colorido catálogo de ideias que não apenas confessa algumas das principais referências da artista, como amplia tudo aquilo que tem sido aprimorado pelo No Joy desde os introdutórios Ghost Blonde (2010) e Wait To Pleasure (2013).

Tamanho esmero no processo de composição do álbum faz de Motherhood o registro mais completo do No Joy até aqui. Mesmo que a segunda metade do material pareça replicar uma série de conceitos previamente apresentados no primeiro bloco do disco, o domínio de White-Gluz em relação ao próprio trabalho mantém a atenção do ouvinte em alta durante todo o processo de audição da obra. Ideias e conceitos muitas vezes divergentes, mas que se entrelaçam de maneira coesa, funcionando dentro do estranho território criativo que embala a experiência do público até a derradeira Kidder.