"Norman Fucking Rockwell"

Ano: 2019
Selo: Polydor / Interscope
Gênero: Pop, Art Pop, Rock
Para quem gosta de: Cat Power, Lorde e Lykke Li
Ouça: Hope is a dangerous thing e The Greatest
Nota: 8.8

Crítica | “Norman Fucking Rockwell”, Lana Del Rey

Em um lento processo de transformação, Lana Del Rey foi de uma aposta temporária, em Born to Die (2012), para um dos nomes mais importantes do novo pop norte-americano. Basta observar o evidente salto criativo que embala a produção de registros como Ultraviolence (2014), Honeymoon (2015), e, mais recentemente, Lust for Life (2017). Uma seleção de obras embriagadas pela melancolia dos arranjos e poemas musicados que utilizam de memórias, desilusões e experiências particulares da artista para pintar um cenário decadente dos Estados Unidos. Canções concebidas em uma medida própria de tempo, sem pressa, indicativo de um universo em pleno processo de composição, feito para ser desvendado pelo ouvinte.

Em Norman Fucking Rockwell (2019, Polydor / Interscope), sexto e mais recente álbum de estúdio da cantora, é onde todos esses componentes apresentados ao longo da última década se organizam com maior naturalidade. Estão lá os arranjos empoeirados que apontam para o rock dos anos 1970 (Mariners Apartment Complex), típicos do trabalho em Ultraviolence; o flerte com o trip-hop (Doin’ Time), base para o inaugural Born To Die e, principalmente, a essência nostálgica que compõe o trabalho da artista (The Next Best American Record). São fragmentos poéticos e instrumentais que revisitam personagens, histórias e cenários, estrutura que passa pela antiga Hollywood, mergulha na obra de Elvis Presley e encontra no hip-hop da Costa Oeste dos Estados Unidos um precioso elemento de conexão entre ideias e referências conceitualmente distintas.

Parte dessa coerência na composição de um trabalho tão diverso sobrevive na escolha de Jack Antonoff (St. Vincent, Taylor Swift) como principal produtor do disco. Livre dos habituais sintetizadores e temas eletrônicos que vem explorando desde o encontro com Lorde, em Melodrama (2017), o músico norte-americano se concentra em garantir ao público uma obra de essência orgânica, assumindo parte expressiva dos pianos, guitarras e demais instrumentos que recheiam o disco. O resultado desse forte comprometimento estético está na produção de músicas como a extensa Venice Bitch. São pouco mais de nove minutos em que a poesia romântica de Lana Del Rey se espalha em meio a reverberações psicodélicas, transportando o som produzido pela cantora para um novo e delirante território criativo.

Claro que essa busca por novas possibilidades não interfere na entrega de músicas ainda íntimas dos antigos trabalhos da cantora. É o caso da balada Cinnamon Girl, música em que reflete sobre o desejo de se entregar a um relacionamento doentio ou escapar dele. “Se você abraçar sem me machucar / Será o primeiro a fazer isso“, canta enquanto arranjos orquestrais se espalham em meio a batidas densas, lembrando parte do material apresentado no antecessor Lust For Life. O mesmo direcionamento acaba se refletindo em Fuck it I love you, com seu misto de canto e rima que se completa pelo uso quase instrumental da voz, como um reforço aos versos lançados pela cantora – “Gostaria que você me abraçasse ou apenas dissesse que você é meu / Está me matando lentamente“.

De fato, para além do esmero na composição dos arranjos, a real beleza de Norman Fucking Rockwell sobrevive na poesia intimista de Lana Del Rey. “Você me fodeu tão bem que eu quase disse: ‘eu te amo’ / Você é divertido e selvagem / Mas você não sabe metade da merda que você me fez passar“, confessa na autointitulada faixa de abertura, apontando a direção seguida no restante da obra. São versos que vão do atual cenário político à decadência do estilo de vida norte-americano, marca da crescente The Greatest, uma das principais faixas do trabalho. Nada que se compare à vulnerabilidade explícita em Hope is a dangerous thing for a woman like me to have – but i have it, composição em que utiliza da própria depressão e referências à a obra de Sylvia Plath (1932-1963) como um elemento de diálogo imediato com o ouvinte. “Não pergunte se estou feliz, você sabe que não estou / Mas na melhor das hipóteses, posso dizer que não estou triste / Porque a esperança é uma coisa perigosa para uma mulher como eu ter“, canta.

Entretanto, na mesma medida em que reflete o completo amadurecimento criativo da cantora, Norman Fucking Rockwell carrega uma série de faixas menores, como uma fuga do restante da obra. É o caso de Happiness Is a Butterfly, com sua poesia quase adolescente (“A felicidade é uma borboleta / Tento pegá-la todas as noites / Escapa das minhas mãos para o luar“) e a rima pobre que invade os versos de Bartender (“wine … fine … vine“). Curiosamente, ambas as composições contam com a interferência direta do produtor Rick Nowels, parceiro de longa data da artista e um dos principais responsáveis por Lust for Life. Pequenos excessos que prejudicam o crescimento da obra, mas que em nenhum momento corrompem aquele que, por ora, é o principal trabalho da carreira de Lana Del Rey.



Leave a Reply