"Nossos Amigos e os Lugares que Visitamos"

Ano: 2019
Selo: Independente
Gênero: Rock Alternativo, Emo, Indie Rock
Para quem gosta de: Jonathan Tadeu e Raça
Ouça: Nos Seus Movimentos e Fim do Inverno
Nota: 6.0

Crítica: “Nossos Amigos e os Lugares que Visitamos”, El Toro Fuerte

Com o título de Nossos Amigos e os Lugares que Visitamos (2019, Independente), o novo álbum da banda mineira El Toro Fuerte diz a que veio mesmo antes que a primeira faixa tenha início. São memórias de um passado ainda recente, relacionamentos fracassados, instantes de breve acolhimento e reflexões introspectivas que revelam ao público algumas das principais inquietações do grupo formado por João Carvalho (vocais, guitarra e baixo), Gabriel Martins (bateria), Fábio de Carvalho (guitarra, baixo, vocais) e Diego Soares (baixo, guitarra e vocais).

Sequência ao material entregue no bom Um Tempo Lindo Pra Estar Vivo (2016), o novo álbum preserva a essência do registro que o antecede, porém, transporta o som produzido pelo quarteto mineiro para um novo universo criativo. Como indicado logo na imagem de capa do trabalho, cada composição da obra se projeta como um objeto isolado. Frações poéticas e instrumentais que se espalham sem ordem aparente, como retalhos conceituais que traduzem tudo aquilo que cada integrante da banda vem experimentando desde o último registro de inéditas.

Dessa forma, Nossos Amigos e os Lugares que Visitamos se revela ao público muito mais como uma obra de ideias do que um trabalho completo em si. Falta conexão, mínimo traço de refinamento e coerência entre as faixas, maturidade que normalmente se espera de um segundo álbum de estúdio. Exemplo disso está na construção de músicas como Aquários e Clara. Composições bem-sucedidas, preciosas, mas que parecem dialogar muito mais com os trabalhos de João Carvalho em carreira solo, como no Rio Sem Nome e Sentidor, do que com o material que embala o restante da obra.

A forte verborragia se revela como outro grave problema do álbum. São músicas exageradamente extensas, como a inaugural Aniversários São Difíceis, composição que se resolve de maneira tocante logo nos três primeiros minutos, mas que se arrasta de forma desnecessária em um segundo ato completamente anticlimático. Em Antecipação, oitava faixa do disco, a pobreza das rimas e uso excessivo de verbos no infinitivo – “Se o inverno não passar / Pra gente poder conversar / Se a gente não ganhar / Do chão eu vou te apoiar“. Instantes de breve desequilíbrio que contribuem para o inevitável enfraquecimento da obra.

Claro que Nossos Amigos e os Lugares que Visitamos está longe de parecer um registro marcado apenas pelos erros. Do momento em que tem início, na já citada Aniversários São Difíceis, até alcançar a derradeira Corações Tranquilos Dormem Cedo, perceba o cuidado da banda na composição das guitarras e paisagens instrumentais que sutilmente ganham forma ao fundo do álbum. Inserções minuciosas que parecem dialogar com o trabalho de estrangeiros como American Football e Death Cab For Cutie. É o caso da já conhecida Fim do Inverno, música que amplia de forma sensível a mesma atmosférica detalhada no disco anterior. O mesmo cuidado se faz evidente em Calada, faixa que atravessa o rock dos anos 1990 para provar de novos temas e pequenas variações psicodélicas.

O próprio uso de vozes femininas, como nas delicadas Santa Mônica, colaboração com Raquel Batista, e Nos Seus Movimentos, encontro com Laura Vilela, garante ao álbum um necessário toque de renovação. Trata-se de uma fuga dos habituais conflitos masculinos que tradicionalmente abastecem (e sufocam) esse tipo de obra, como uma perversão dos clichês típicos do famigerado “rock triste”. Momentos de breve acerto, mas que acabam se perdendo em um trabalho consumido pelos excessos e evidente desorganização.