"Nothing Great About Britain"

Ano: 2019
Selo: Method
Gênero: Hip-Hop, Rap, Grime
Para quem gosta de: Octavian, Skepta e Stormzy
Ouça: Peace of Mind e Nothing Great About Britain
Nota: 8.0

Crítica | “Nothing Great About Britain”, Slowthai

Tyron Kaymone Frampton não poderia ter pensado em um título melhor para o primeiro álbum de estúdio como Slowthai, Nothing Great About Britain (2019, Method). Da icônica imagem de capa, com o rapper nu, preso e exposto em praça pública enquanto pessoas brancas o observam ao longe, passando pela composição dos versos, sempre caóticos e descritivos, cada fragmento do trabalho pinta um retrato cru do atual cenário político, cultural e social da Grã-Bretanha. Uma extensão precisa de tudo aquilo que o artista de Northampton, Northamptonshire, vem produzindo desde o início da carreira.

Eu sou um prodígio, eles me fizeram / Eu uso correntes como o meu avô usou na escravidão … Aproprie-se da cultura antes que eles prestem atenção / Mude o sonho, mais forma, quebre por favor / Porque a indústria está tentando constranger a gente“, rima logo nos primeiros minutos do disco, na autointitulada faixa de abertura. São versos em que discute racismo, apropriação cultural e o sufocamento dos indivíduos em meio a ataques diretos à realeza britânica.

A mesma crueza na composição dos versos acaba se refletindo em Peace of Mind. “Eu me sinto em paz quando estou dormindo na minha cama e não consigo ouvir / Eu me sinto em paz quando estou sonhando com uma vida que não vivo“, rima de forma sarcástica enquanto mergulha em meio a paisagens descritivas, personagens viciados e cenas que descrevem o caos social de qualquer grande centro urbano. “Andando pelos blocos, vejo as rachaduras, me esquivo das seringas … Agora eu sou o culpado, mas o problema não é realmente nosso“, completa em um misto de angústia e aceitação.

São versos que refletem a completa descrença do eu lírico, o descaso do governo e a necessidade de seguir em frente mesmo imerso nesse cenário caótico. Canções que passeiam pela infância pobre de Frampton (“Mamãe tomou empréstimos para fazer ela parecer bonita / Trabalhou até o osso para colocar comida ao lado dela“), porém, de forma sempre provocativa, honesta, como se a crueza expressa pelo rapper no jogo de palavras fosse resultado dessa formação torta – “O que mamãe fez com você? / Você tem sorte de eu não ser tão grande quanto você / Eu vou socar você até minhas mãos ficarem azuis“.

Mesmo a escolha dos convidados ao longo da obra parece contribuir para esse cenário puramente caótico. “Eu sou um lobo solitário, comendo aquela merda de gangue / Até seus mortos e enterrados“, rima na provocativa Inglorious, composição que se abre para a bem-sucedida participação do conterrâneo Skepta. Em Grow Up, encontro com Jaykae, fragmentos de versos que discutem a passagem do tempo, apontam para diferentes representantes do rap inglês e expressam o desejo da dupla e evoluir conceitualmente dentro desse cenário – “Crescendo rápido demais / Nada é para sempre / E você não pode seguir em frente / Se você está preso no passado“.

Coeso até o último instante, nos versos de Northampton’s Child, Nothing Great About Britain reflete as angústias, críticas e inquietações de Slowthai, porém, de forma sempre íntima do público. Da construção das batidas e rimas rápidas de Doorman, colaboração com Mura Masa, passando pelo minimalismo de Gorgeous ao direcionamento caótico de Crack, não são poucos os momentos em que o rapper, em parceria com o produtor Kwes Darko, faz dos próprios conflitos e reflexões sobre o cotidiano inglês a base para uma obra de linguagem universal.



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