"Source"

Ano: 2020
Selo: Concord
Gênero: Jazz, Soul, Instrumental
Para quem gosta de: Ezra Collective, Kamasi Washington e Esperanza Spalding
Ouça: Together Is a Beautiful Place To Be e Pace
Nota: 8.0

Crítica | Nubya Garcia: “Source”

Mesmo nascida em Londres, na Inglaterra, Nubya Garcia sempre manteve os ouvidos bem abertos para a produção sul-americana, principalmente o jazz. Filha de pai trinitário e mãe guianense, a saxofonista e compositora britânica fez justamente dessa relação com a música latina um elemento de destaque dentro da novíssima cena inglesa, estreitando a relação com nomes importantes que surgiram ao longo da última década, como Ezra Collective e Makaya McCraven. Entretanto, para além do diálogo com diferentes representantes do gênero, sobrevive nos registros em carreira solo a passagem para um universo ainda mais interessante e conceitualmente desafiador.

Exemplo disso pode ser percebido em toda a sequência de músicas que marcam o primeiro álbum de estúdio da artista britânica: Source (2020, Concord). Como indicado no título do trabalho, em português, “fonte”, o registro de nove faixas amplia tudo aquilo que Garcia havia testado no antecessor e também inventivo Nubya’s 5ive EP (2017). São incontáveis camadas instrumentais que surgem e desaparecem durante toda a execução da obra, diferentes ritmos e possibilidades, como se a saxofonista revelasse ao público algumas de suas principais referências criativas.

Não por acaso, cada composição é tratada como um objeto isolado. Exemplo disso acontece na sequência de abertura do disco. Enquanto a introdutória Pace parece dialogar com as orquestrações e temas épicos de Kamasi Washington, minutos à frente, no encontro com Ms. Maurice, Cassie Kinoshi e Richie Seivwright, Garcia mergulha de cabeça no reggae, estreitando a relação com outros nomes da cena britânica, muitos deles descendentes de jamaicanos. Ideias que se cruzam sem ordem aparente, de forma não convencional, tornando a experiência de ouvir o trabalho sempre curiosa e satisfatória.

Como forma de estimular a aproximação entre as faixas, Garcia estabelece pequenas amarras rítmicas durante toda a execução do álbum. Instantes de parcial silenciamento que antecedem a formação de músicas turbulentas, por vezes marcadas pelo uso destacado da percussão, sopros e vozes. Perfeita representação desse resultado está na dobradinha composta por Stand With Each Other e Inner Game. Pouco mais de 11 minutos em que somos convidados a mergulhar em uma atmosfera doce, porém, sutilmente rompida pela força dos arranjos e batidas cada vez mais destacadas.

Tamanho esmero no processo de formação da obra naturalmente exige uma audição atenta por parte do ouvinte. São duas frentes criativas organizadas dentro de um mesmo registro. Enquanto a primeira metade do álbum segue a trilha de outros exemplares ainda recentes da cena inglesa, vide as criações de Shabaka Hutchings, na porção seguinte, Garcia amplia a forte relação familiar que tem sido incorporada desde os primeiros projetos autorais. São faixas como La cumbia me está llamando, em que utiliza de elementos da música latina, revelando ao público a porção mais inventiva do trabalho.

Entregue ao público em um ano repleto de grandes lançamentos para o gênero, como We’re New Again (2020), reinterpretação de Makaya McCraven para a obra de Gil-Scott Heron, e Suite for Max Brown (2020), do baterista Jeff Parker, Source naturalmente assume uma posição de destaque no meio em que está inserido. Do tratamento dado aos arranjos à fina sobreposição de ritmos que orienta a experiência do ouvinte, tudo gira em das referências que abastecem a obra da saxofonista desde os primeiros registros autorais. Um permanente olhar para o passado e criativo resgate da própria herança familiar, porém, dentro de uma linguagem atualizada e particular.


Jornalista, criador do Miojo Indie e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.