"UR FUN"

Ano: 2020
Selo: Polyvinyl
Gênero: Pop Rock, Synthpop
Para quem gosta de: Animal Collective e The Flaming Lips
Ouça: Peace To All Freaks e You’ve Had Me Everywhere
Nota: 6.5

Crítica | Of Montreal: “UR FUN”

Em mais de duas décadas de carreira, não foram poucos os caminhos percorridos por Kevin Barnes no Of Montreal. Se em início de carreira o músico norte-americano parecia investir em um material pontuado por pequenas orquestrações e melodias aprazíveis, vide o fino repertório detalhado em Cherry Peel (1997) e The Gay Parade (1999), com a chegada de obras como Satanic Panic in the Attic (2004) e Hissing Fauna, Are You the Destroyer? (2007), o artista de Athens, Georgia, decidiu mergulhar em um pop delirante, torto e psicodélico, conceito que passou a orientar parte expressiva dos trabalhos apresentados pela banda.

Entretanto, com a chegada do colorido Innocence Reaches (2016) e a boa repercussão em torno de faixas como It’s Different for Girls e My Fair Lady, Barnes e seus sempre mutáveis parceiros de banda passaram a investir em um repertório guiado por referências eletrônicas. Prova disso está em toda a sequência de faixas entregues pelo grupo norte-americano no álbum seguinte, White Is Relic/Irrealis Mood (2018), registro que mostra a versatilidade do coletivo dentro de estúdio, e um preparativo claro para o som detalhado no recente UR FUN (2019, Polyvinyl).

Declaradamente influenciado pelo pop nostálgico de Cyndi Lauper, Janet Jackson e outros nomes de destaque dos anos 1980, o registro que conta com produção assinada pelo próprio Barnes se divide entre faixas marcadas pelo forte apelo melódico e músicas completamente estranhas. Vem justamente desse primeiro grupo a introdutória Peace to All Freaks, canção que resgata a essência de obras como Hissing Fauna, Are You the Destroyer?, refletindo a capacidade do artista norte-americano em dialogar com uma parcela maior do público, conceito também evidente nas ótimas Polyaneurism e You’ve Had Me Everywhere.

Ponto de partida para o segundo bloco de canções, Get God’s Attention By Being an Atheist utiliza de uma trama de guitarras insanas para mergulhar em um pop minimalista, direcionamento que encolhe e cresce durante toda a execução da faixa. A mesma base incerta acaba se refletindo em outros momentos ao longo da obra, como Don’t Let Me Die In America, canção que parece saída de algum disco produzido por David Bowie nos anos 1970, ou mesmo a derradeira 20th Century Schizofriendic Revengoid-man, música que evoca os primórdios da New Wave, como uma versão atualizada da obra do Devo.

Interessante perceber na lisérgica Deliberate Self-harm Ha Ha, próxima ao encerramento do disco, o princípio de um novo direcionamento criativo por parte da banda. São pouco mais de quatro minutos em que Barnes e seus parceiros de estúdio vão do rock dos anos 1970 à psicodelia dos anos 2010 em uma estrutura que naturalmente aponta para a obra de Tame Impala, Uknown Mortal Orchestra e outros nomes recentes. Mesmo You’ve Had Me Everywhere, com seus sintetizadores e melodias empoeiradas, utiliza de uma série de conceitos similares, fazendo do lirismo confessional do músico um importante componente de transformação criativa. “Ouvindo o seu batimento cardíaco, e percebendo que é o meu batimento cardíaco também / Porque se algo lhe acontecesse / Eu perderia a cabeça e nunca mais me recuperaria“, confessa.

De fato, é justamente essa base romântica e profunda honestidade detalhada na composição dos versos que garante novo significado ao trabalho. Trata-se de um retrato sentimental e intimista do relacionamento vivido pelo músico e cantora Christina Schneiderm, com quem divide a imagem de capa do disco. Um evidente ponto de equilíbrio criativo, como se para além do criativo jogo de referencias instrumentais que transitam por diferentes campos da música de forma sempre irregular, Barnes fizesse das próprias experiências um importante componente de diálogo com o próprio ouvinte.