"Oh My God"

Ano: 2019`
Selo: Dead Oceans
Gênero: Indie Rock, Folk Rock
Para quem gosta de: Cass McCombs e Kurt Vile
Ouça: No Halo e Nothing Sacred
Nota: 7.8

Crítica | “Oh My God”, Kevin Morby

A viagem musical de Kevin Morby pela música dos anos 1970 parece longe de chegar ao fim. Pouco menos de dois anos após o lançamento de City Music (2017), obra em que decidiu mergulhar na composição de temas urbanos, dialogando com a essência de Bob Dylan, o cantor e compositor está de volta com um novo registro autoral. Em Oh My God (2019, Dead Oceans), o músico texano preserva a essência dos último registros, porém, se permite avançar criativamente, esbarrando vez ou outra na obra de Lou Reed e demais veteranos do mesmo período.

Dividido entre instantes de maior recolhimento e inserções precisas que engrandecem a obra de Morby, Oh My God estabelece nesse lento borbulhar de ideias a base para grande parte do material entregue pelo músico. Exemplo disso está na doce versatilidade de Nothing Sacred / All Things Wild, composição que parte de uma estrutura reducionista, calcada no uso das batidas e percussão econômica, para sutilmente flertar com elementos do soul, estrutura que faz lembrar o trabalho de David Bowie no clássico Young Americans (1975).

O mesmo reducionismo se faz evidente na lenta composição de No Halo, música que parte do sincronismo das palmas para orientar a estrutura rítmica dos elementos. São pequenas sobreposições climáticas que partem do uso minucioso de um piano e arranjos de cordas atmosféricos para a inserção de metais e instrumentos de sopro. Um rico catálogo melódico que se completa pela poesia sensível de Morby – “Quando eu era um menino / Nenhum limite para a minha alegria / Quando eu era criança / Ninguém, em nenhum lugar, em nenhum possibilidade, nada era feito de fogo“.

Dos poucos momentos em que rompe com essa estrutura contida, caso de OMG Rock n Roll, Morby não apenas se distancia dos antigos trabalhos como dialoga de forma deliciosamente nostálgica com o passado. “Ficou muito fraco para esta carga pesada / Leve uma canção alegre onde quer que eu vá / Cante, oh meu Deus, oh meu senhor“, canta em um misto de louvor e sátira religiosa, estrutura que se completa com as guitarras e batidas rápidas que apontam de maneira nada sutil para os encontros entre Reed e John Cale nos primeiros trabalhos do Velvet Underground.

Em Seven Devils, quinta composição do álbum, um parcial regresso ao material entregue em Singing Saw (2016), efeito direto da base climática da canção e guitarras que parecem resgatadas do álbum Sky Blue Sky (2007), do Wilco. O mesmo clima de piano bar volta a se repetir mais a frente, em I Want To Be Clean, música adornada pelo órgão destacado e pianos complementares. No minimalismo de Sing a Glad Song, versos sensíveis que se espalham a partir da orquestração sublime da linha de baixo e percussão certeira, como um diálogo com o material entregue em Nothing Sacred / All Things Wild.

Partindo dessa colorida sobreposição de ideias, Morby entrega ao público uma obra que resgata uma série de elementos consolidados desde o início do trabalho em carreira solo, mas que em nenhum momento ecoa de maneira redundante ou minimamente próxima do auto-plágio. Trata-se de uma obra que flerta com a zona de conforto de seu próprio realizador, mas que encontra no romantismo confessional, versos existencialistas e instantes de profunda melancolia um permanente exercício de amadurecimento conceitual e estético.