"On The Line"

Ano: 2019
Selo: Warner Bros.
Gênero: Indie, Folk Rock, Alt. Country
Para quem gosta de: Neko Case e Phoebe Bridgers
Ouça: Heads Gonna Roll e Heads Gonna Roll
Nota: 8.0

Crítica | “On The Line”, Jenny Lewis

Da estreia em carreira solo, com Rabbit Fur Coat (2006), colaboração com a dupla The Watson Twins, passando pela busca por novas possibilidades, em Acid Tongue (2008), e a clara tentativa em dialogar com uma parcela maior do público, no acessível The Voyager (2014), Jenny Lewis passou parte expressiva da última década em busca da própria identidade artística. Mesmo conhecida pelo trabalho como integrante do Rilo Kiley, e de contribuir com nomes como The Postal Service, faltava à cantora e compositora norte-americana um grande exercício autoral.

Satisfatório perceber nas canções de On The Line (2019, Warner Bros.), quarto álbum de estúdio em carreira solo, um evidente senso de aprimoramento estético e lírico. Concebido em um intervalo de cinco anos, o trabalho que conta com produção dividida entre Lewis, Beck, Shawn Everett (Albama Shakes, The War On Drugs) e Ryan Adams não apenas preserva a essência dos antigos trabalhos da artista, como estabelece um evidente ponto de equilíbrio entre algumas das principais referências instrumentais e poéticas da cantora.

Da abertura do disco, em Heads Gonna Roll, passando pelo rock empoeirado de Party Clown até alcançar a derradeira Rabbit Hole, perceba como Lewis e os parceiros de banda buscam transportar o ouvinte para algum lugar entre o final dos anos 1970 e o início da década de 1980. São ecos de Bruce Springsteen, Tom Petty and the Heartbreakers, Fleetwood Mac e outros tantos artistas que contribuíram para a consolidação do rock estadunidense na segunda metade do século passado. A própria cantora assumiu em entrevistas mergulhar na obra de Lucinda Williams e outros personagens de destaque que surgiram no mesmo período.

O resultado desse forte diálogo com o passado está na produção de um registro tão referencial e nostálgico quanto íntimo de toda a seleção de obras concebidas por Lewis nos últimos anos. Exemplo disso está no evidente refinamento melódico de Wasted Youth. Concebida em parceria com Benmont Tench, tecladista e um dos integrantes do Tom Petty and the Heartbreakers, a canção parte de uma base melódica, leve, para mergulhar em uma letra essencialmente dolorosa, marcada por memórias da cantora em relação à própria mãe, viciada em heroína.

Essa forte relação entre passado e presente volta a se repetir em uma das principais faixas do disco, Red Bull & Hennessy. São pouco menos de cinco minutos em que Lewis transporta para dentro de estúdio a mesma atmosfera dos trabalhos de Bruce Springsteen. “Eu estou pegando fogo, venha e fique perto de mim / Eu quero andar com você“, canta enquanto guitarras carregadas de efeitos, pianos e batidas secas servem de complemento à canção, reforçando o completo domínio da artista dentro de estúdio.

Completo pela presença de nomes como Ringo Starr, Don Was, Jim Keltner e outros tantos representantes do country/folk norte-americano, Lewis faz de On The Line sua obra mais completa até aqui. Enquanto em Rabbit Fur Coat a cantora parecia lidar com a completa economia dos instrumentos e vozes, interessante perceber nas canções do presente álbum uma completa fuga desse resultado. De fato, poucas vezes antes a artista de Las Vegas pareceu tão imponente, forte. Um evidente estágio de grandeza que estrapola mesmo os antigos trabalhos da artista no Rilo Kiley.



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