"Oneohtrix Point Never"

Ano: 2020
Selo: Warp
Gênero: Experimental, Eletrônica, Música Ambiente
Para quem gosta de: Tim Hecker e Yves Tumor
Ouça: Long Road Home e No Nightmares
Nota: 8.0

Crítica | Oneohtrix Point Never: “Magic Oneohtrix Point Never”

Em meados de 2010, Daniel Lopatin teve acesso a um DVD com diferentes comerciais produzidos entre os anos 1980 e 1990. Fascinado pelo teor nostálgico da coletânea, o artista original de Wayland, Massachusetts, decidiu investir na fragmentação do acervo, recortando trechos de vozes, ruídos e melodias empoeiradas, estímulo para o material que seria revelado meses mais tarde durante a apresentação de sua maior obra, Replica (2011). Agora, dez anos após o lançamento do cultuado registro, o músico residente em Nova Iorque resgata o mesmo conceito criativo, porém, substituindo a TV pelo rádio nas canções de Magic Oneohtrix Point Never (2020, Warp).

Inspirado pelas estações de rádio norte-americanas, Lopatin surge como o diretor de programação em um álbum marcada pela corrupção das ideias. Entre texturas sintéticas e vozes carregadas de efeitos, o produtor convida o ouvinte a se perder em um território onde cada composição parece apontar para uma direção específica, brincando com a interpretação do público. Instantes em que o autor de obras como R Plus 7 (2013) e Garden o Delete (2015) parte de uma estrutura linear, porém, acaba se perdendo em um labirinto de ruídos e formas inexatas, conceito que dialoga diretamente com a imagem de capa produzida pelo sempre requisitado Robert Beatty.

Nesse sentido, o sucessor do também conceitual Age Of  (2018), lançado há dois anos, faz de cada composição um objeto isolado. São fragmentos de vozes, batidas, ruídos e melodias empoeiradas que se entrelaçam de maneira sempre irregular, mudando de direção a todo instante. Exemplo disso acontece em The Whether Channel, sétima faixa do disco. Completa pela participação do rapper Nolanberollin, a canção parte de uma base atmosférica, porém, cresce em meio a variações sintéticas e ambientações tortas, lembrando o material entregue em Channel Pressure (2011), bem-sucedido registro da parceria entre Lopatin e o produtor Joel Ford.

A principal diferença em relação aos antigos trabalhos de Oneohtrix Point Never está entrega de músicas minimamente acessíveis, possibilitando o diálogo com uma parcela ainda maior do público. Colaborador em uma série de álbuns recentes, como Magalene (2019), de FKA Twigs, Lopatin estabelece pequenas conexões com a música pop, porém, preservando o caráter torto da própria obra. É o caso da já conhecida Long Road Home, parceria com Caroline Polachek, e o R&B futurístico de No Nightmares, música que se abre para a chegada do cantor e compositor canadense The Weeknd, com quem o produtor trabalhou em After Hours (2020).

Mesmo quando surge de maneira solitária pelo interior do disco, Lopatin segue por um caminho diferente em relação aos últimos registros autorais. Difícil ouvir a dolorosa Lost But Never Alone e não se deixar conduzir pela experiência sentimental proposta pelo artista. Do uso destacado das vozes à força dos sintetizadores, cada fragmento da canção parece pensado para envolver o ouvinte, conceito que acaba se refletindo na derradeira Nothing’s Special. Surgem ainda faixas como Imago, composição que, mesmo regida pela completa ausência dos versos, sustenta na melancolia dos arranjos um delicado componente de diálogo com o ouvinte.

Não por acaso, Magic Oneohtrix Point Never talvez seja o álbum mais indicado para aqueles que nunca se aprofundaram na obra de Lopatin. Enquanto preserva o caráter vanguardista dos antigos trabalhos do músico, canções como I Don’t Love Me Anymore, com ecos de Yves Tumor, e as colaborativas Long Road Home, No Nightmares e Shifting, essa última, completa pela presença de Arca, refletem a curiosa interpretação do artista sobre a música pop. O resultado desse processo está na produção de uma obra que parte de um conceito bastante específico, porém, se revela como um trabalho essencialmente amplo e maior a cada nova audição.