"Ousel"

Ano: 2020
Selo: Independente
Gênero: Indie Rock, Dream Pop, Pós-Rock
Para quem gosta de: Terno Rei, BRVNKS e Marrakesh
Ouça: Choices e Maya
Nota: 7.8

Crítica | Ousel: “Ousel”

Um dos principais problemas de quem costuma revisitar a obra de veteranos da década de 1990, como Ride, Pale Saints e Slowdive, não está na incapacidade de replicar a essência ruidosa desses artistas, mas em entender que muito de seus trabalhos dependem da ambientação. São clássicos como Nowhere (1990), The Confort of Madness (1990) e Souvlaki (1994), em que a beleza de cada canção sobrevive justamente da forma como incontáveis camadas instrumentais, texturas e vozes se entrelaçam de forma sensível, como um convite a se perder em um universo de pequenas reverberações.

Satisfatório perceber nas canções que recheiam o autointitulado registro de estreia do grupo goiano Ousel o mesmo comprometimento estético. Do momento em que tem início, na atmosférica de Lighthouse, até alcançar a derradeira Fade Out, cada fragmento do registro de oito faixas parece pensado para cercar e confortar o ouvinte. São guitarras carregadas de efeitos, batidas e versos confessionais que se espalham em um intervalo de quase 40 minutos de duração, tempos suficiente para que os músicos João Paulo Guimarães (guitarra), Renato Fernandes (guitarra, teclados), Jean Ramos (bateria), Túlio Queiroz (baixo) e Roberta Moro (voz) testem os próprios limites dentro de estúdio.

Olho para trás / E tudo se foi / Não há escapatória / Pelas coisas que eu fiz / Caia fora e venha comigo“, canta Moro enquanto guitarras delirantes encolhem e crescem ao fundo de Choices, indicando parte da estrutura que orienta a experiência do público ao longo da obra. São versos sempre regidos pela força dos sentimentos, medos e declarações de amor, proposta que se completa pela lenta desconstrução dos arranjos e melodias submersas, como uma extensão natural de tudo aquilo que o grupo goiano vem testado desde o último ano, durante o lançamento de Maya.

Perfeita representação desse resultado ecoa com naturalidade na etérea Silent Mess. São pouco menos de cinco minutos em que guitarras e vozes parecem tratadas de forma complementar, sonoridade que naturalmente faz lembrar do som produzido por estrangeiros como Mew. Mesmo Autumn Days, com suas melodias ensolaradas, em nenhum momento se distancia do restante da obra. Guitarras cristalinas e sintetizadores ocasionais, como um contraponto sensível à melancolia que sutilmente invade a letra descritiva da canção. “O sol não saiu / Deixe a tempestade tirar isso“, canta.

Claro que essa busca por um registro atmosférico não interfere na produção de músicas regidas pela urgência dos temas. É o caso de Mistaken, quinta faixa do disco. Inaugurada em meio a ambientações minimalistas, a canção rapidamente se transforma e cresce a partir do uso destacado da bateria e formulas pouco usuais. São arranjos ascendentes, fortes, como uma fuga breve do restante da obra. A própria Choices, mesmo marcada pela sobreposição detalhista das guitarras, encanta pela força dos arranjos e entrega de seus realizadores, como uma tentativa clara do grupo em avançar criativamente.

Com base nessa estrutura, a estreia da Ousel se revela como uma obra de possibilidades. Ainda que peque pela ausência de identidade, flertando a todo momento com o trabalho de estrangeiros da cena alternativa, como Mogwai, o esmero na composição dos arranjos e versos torna a experiência do ouvinte sempre aprazível. Como indicado durante o lançamento de Maya e Silent Mess, ainda no último ano, trata-se de um registro feito para ser desvendado. Camadas instrumentais que surgem e desaparecem durante toda sua execução, estrutura que faz do presente álbum um delicado e sempre mutável labirinto sonoro.