"111"

Ano: 2020
Selo: Sony Music
Gênero: Pop, Brega, Trap
Para quem gosta de: Glória Groove e Lia Clark
Ouça: Rajadão, Amor de Que e Parabéns
Nota: 6.5

Crítica | Pabllo Vittar: “111”

Se existe uma coisa que Pabllo Vittar parece entender melhor do que qualquer outro artista brasileiro é como divertir o público. Para além da reciclagem de ritmos estrangeiros e da tentativa de dar novo acabamento ao brega, sobrevive na poesia cômica da artista maranhense a passagem para um fino catálogo de ideias que parece pensado para grudar na cabeça do ouvinte. Canções ancoradas em relacionamentos fracassados, versos marcados pelo doce erotismo e instantes que rapidamente convidam o espectador a dançar, cuidado que se reflete durante a entrega de Não Para Não (2018), mas que volta a se repetir com a chegada de 111 (2020, Sony Music).

Mais uma vez acompanhada pelos parceiros Maffalda, Rodrigo Gorky, Pablo Bispo e Zebu, da Brabo Music Team, o trabalho de apenas nove faixas, parte expressiva delas já conhecidas do público, segue exatamente de onde a drag queen parou no disco anterior. Um misto de axé, R&B, trap latino, brega e funk, estrutura que se espalha em meio a vocalizações exageradas, gemidos e momentos de doce nostalgia, como um olhar curioso para que há de mais caricato na música pop produzida entre o final da década de 1990 e início dos anos 2000.

Exemplo disso está cômica Amor de Que, música que poderia facilmente embalar as noites de Sabadão Sertanejo ou as tardes de Domingo Legal, efeito direto do romantismo agridoce que parece emular a atmosfera de clássicos como Morango do Nordeste, do Karametade, ou Tô Te Filmando (Sorria), dos Travessos. “Veja bem, não é maldade / É que tem tanto homem bonito na cidade / E eu ‘to na flor da idade / Melhor se arrepender do que passar vontade“, confessa enquanto a batida quente se espalha em meio a teclados e saxofones cretinos, conceito anteriormente testado pela artista em algumas de suas principais criações, como Disk Me.

Nada que se compare ao material entregue na derradeira Rajadão. Partindo de uma curva criativa completamente inesperada, Vittar e seus parceiros de estúdio transformam um hino de louvor gospel em um trance pronto para as pistas. “E quem caiu vai levantar e a gente vai vencer / Sofrimento acabar e o amor vai crescer / Inimigos vão cair ao som desse trovão / Levanta a mão pro alto e sente o rajadão“, testemunha. É como se Ana Paula Valadão e Lasgo se encontrassem em um remix de Gigi D’Agostino, proposta que orienta com naturalidade a experiência do ouvinte até o último instante da faixa.

Claro que esse cuidado na montagem do disco não interfere na entrega de músicas completamente esquecíveis. Sob a justificativa de atingir uma parcela maior do público, mirando no mercado internacional, Vittar entrega ao público uma seleção de faixas cantadas em espanhol sofrível. Com exceção do encontro com Thalía, em Tímida, é difícil criar qualquer tipo de apego ao material entregue em Salvaje e Ponte Perra, canções que parecem ocupar o espaço de outras músicas possivelmente cantadas em português. Mesmo a colaboração com Charli XCX, na já conhecida Flash Pose, parece deslocado do restante da obra, incapaz de dialogar com o mesmo pop cômico explícito logo na introdutória Parabéns, bem-sucedido encontro com Psirico.

Completo pela presença de Jerry Smith, em Clima Quente, e Ivete Sangalo, na ótima Lovezinho, 111 replica com naturalidade uma série de elementos originalmente testados durante o lançamento de Não Para Não, entretanto, parece longe de qualquer traço de conforto. Entre músicas que refletem o que há de mais acessível na obra da artista maranhense, como Parabéns e Amor de Que, sobrevive nos momentos de maior transformação, caso de Rajadão, um importante componente criativo para o fortalecimento da obra. Instantes em que Pabllo Vittar brinca com as possibilidades, porém, preservando a própria essência.