"Par de Olhos"

Ano: 2019
Selo: Matraca / YB Music
Gênero: Indie Rock, Dream Pop
Para quem gosta de: Terno Rei, Cora e Viratempo
Ouça: Vampiro e Par de Olhos
Nota: 8.5

Crítica: “Par de Olhos”, YMA

Em um universo de artistas embriagados pelo espírito nostálgico da década de 1980, Yasmin Mamedio parece seguir um caminho particular. Sem pressa, a cantora e compositora paulistana passou os últimos meses presenteando o público com uma série de composições inéditas. Fragmentos, como a curiosa e propositadamente irregular Sabiá, ou mesmo o rock empoeirado de Summer Lover, colaboração com Gab Ferreira e um esboço claro do material que se revela por completo no primeiro álbum de estúdio da artista, o delirante Par de Olhos (2019, Matraca / YB Music).

Misto de passado e presente, o trabalho dança pelo campo das ideias de forma a extrair os principais sentimentos, angústias e confissões românticas que invadem a mente da cantora. “Vamos fugir juntos / Que o tempo é curto / E eu não quero mais morrer / Eu quero dançar com você”, clama na já conhecida Vampiro, um dream pop fantasmagórico que parece apontar parte da direção seguida pela artista durante toda a execução da obra. São versos confessionais, sensíveis, estímulo para a fina base instrumental que se revela ao público em pequenas doses, proposta que força uma audição atenta por parte do ouvinte, convidado a se perder pelo imenso labirinto de ideias que serve de sustento ao registro.

Exemplo disso está na lenta construção da faixa-título do disco. Do momento em que tem início, na atmosférica base de sintetizadores e vozes, até alcançar as guitarras psicodélicas do convidado Fernando Catatau (Cidadão Instigado), cada movimento da canção parece transportar o ouvinte para um cenário completamente novo. Instantes de parcial recolhimento e profunda libertação que ganham ainda mais destaque na melancólica letra de Mamedio. “Eu quase perco aquele medo / De perder tudo que tenho / De perder o meu lugar / Se vou ficar aqui só / Só eu / E um par de olhos / Que eu nem sei se vou usar”, canta enquanto o ouvinte é tragado para dentro de um imenso turbilhão sentimental e sonoro.



Claro que tamanha sobriedade explícita na composição dos arranjos e versos não interfere na produção de faixas mais acessíveis, deliciosamente pensadas para seduzir o ouvinte. É o caso de Sun and Soul. Colaboração com a banda sergipana Lau e Eu, a faixa de poucos minutos encanta pela delicada inserção dos instrumentos e vozes, proposta que muito se assemelha ao trabalho de estrangeiros como Mr. Twin Sister e TOPS, efeito da completa nostalgia que rege sintetizadores e guitarras que invadem a canção. Um som descompromissado, leve, conceito que volta a se repetir na derradeira Pequenos Rios, música composta em parceria com o mineiro César Lacerda.

Parte dessa riqueza na composição do trabalho vem da interferência direta de Fernando Rischbieter (Stella-Viva) como produtor, guitarrista e diretor criativo da obra ao lado de Mamedio. Produto das ideias assinadas em parceria entre a dupla, o registro ainda se abre para a colaboração dos músicos Uiu Lopes (baixo), Dreg (guitarra), Leon (sintetizadores) e Marco Trintinalha (bateria), além, claro, de diferentes representantes da cena paulistana, entre eles, o experiente Gustavo Ruiz (Tulipa Ruiz, Maurício Pereira).

O resultado dessa criativa sobreposição de ideias e colaboradores está na entrega de um registro essencialmente versátil, capaz de capturar a atenção do ouvinte logo em uma primeira audição. Da poesia efêmera que invade a inaugural Evaporar, passando pelo pop descontraído de Shake It ou mesmo a completa melancolia que ganha forma na intimista Colapso Invisível, cada composição do disco assume uma função específica, ampliando os limites da obra. Frações poéticas e instrumentais que jogam com a experiência do público durante toda a execução do trabalho, como a passagem para um universo próprio de YMA.