"McCartney III"

Ano: 2020
Selo: Capitol
Gênero: Rock, Art Rock, Pop Rock
Para quem gosta de: John Lennon e George Harrison
Ouça: Find My Way, Pretty Boys e Deep Deep Feeling
Nota: 7.6

Crítica | Paul McCartney: “McCartney III”

Três décadas após o lançamento do segundo capítulo da série iniciada em 1970, Paul McCartney está de volta com McCartney III (2020, Capitol). Seguindo a tradição dos discos que o antecedem, cada uma das 11 faixas que recheiam o álbum contam com os instrumentos tocados integralmente pelo cantor e compositor britânico, também responsável pela produção e versos da obra. Um exercício autoral que poderia facilmente se perder nas mãos de um músico iniciante, mas que encanta justamente pelo domínio criativo e forma como o ex-Beatle parece testar os próprios limites em estúdio.

Contido quando próximo das guitarras timbrísticas e experimentos que marcam o álbum anterior, vide o material apresentado em Coming Up e Temporary Secretary, McCartney III traz de volta o lirismo agridoce e o rock que embala os primeiros anos do músico em carreira solo. “Você nunca teve medo de dias como este / Mas agora você está oprimido por suas ansiedades / Deixe-me ajudá-lo, deixe-me ser seu guia / Eu posso te ajudar a alcançar o amor que você sente por dentro“, canta em Find My Way, uma das primeiras do disco a serem apresentadas ao público e uma clara síntese de tudo aquilo que o artista inglês busca desenvolver até o último instante da obra.

São composições bem direcionadas, não necessariamente urgentes, porém, coesas dentro da proposta incorporada pelo músico logo nos primeiros minutos do trabalho. Exemplo disso acontece em Lavatory Lil e Slidin’. Do uso das vozes ao encaixe das guitarras e batidas, McCartney sabe exatamente que direção seguir dentro de estúdio, como uma fuga do som desequilibrado que caracteriza o antecessor Egypt Station (2018). Canções que apontam diretamente para os anos 1970, mas que em nenhum momento sufocam pela nostalgia dos temas explorados ao longo do álbum.

E não poderia ser diferente. A todo momento o músico parece tensionar criativamente os rumos da obra. Perfeita representação desse resultado acontece na extensa Deep Deep Feeling. São pouco mais de oito minutos em que McCartney passeia em meio a incontáveis camadas de pianos, ruídos e vozes sobrepostas, jogando com a interpretação do ouvinte. Um verdadeiro ziguezaguear de ideias e melodias tortas que rompem com qualquer traço de previsibilidade, estrutura que volta a se repetir mais à frente, na também delirante Deep Down, faixa que muda de direção a todo instante.

Contudo, mesmo nesse cenário marcado pelo propositado uso de pequenos desajustes e quebras conceituais, interessante perceber o surgimento de faixas como Pretty Boys. Enquanto os versos utilizam de memórias do cantor no início da carreira – “Conheça os meninos bonitos … Objetos de desejo / Trabalhando para o escudeiro / Você pode olhar, mas é melhor não tocar” –, musicalmente, a faixa parte de uma estrutura comedida, envolvendo o ouvinte lentamente. A própria canção de abertura, Long Tailed Winter Bird, incorpora uma linguagem bastante similar, servindo de ponte para a derradeira Winter Bird / When Winter Comes.

Entregue ao público em um ano repleto de grandes lançamento assinados por nomes importantes como Bruce Springsteen, com Letter To You (2020), e Bob Dylan, em Rough and Rowdy Ways (2020), McCartney III reflete a imagem de um artista que mesmo dono de um vasto repertório, ainda tem muito a oferecer. Composições marcadas pelo desenho torto dos arranjos, melodias e formas instrumentais, mas que sustentam nos versos uma habilidade única de comover com a simplicidade dos temas abordados, conceito que há mais de seis décadas embala as criações do cantor.


Jornalista, criador do Miojo Indie e integrante do podcast Vamos Falar Sobre Música. Já passou por diferentes publicações de Editora Abril, foi editor de Cultura e Entretenimento no Huffington Post Brasil, colaborou com a Folha de S. Paulo e trabalhou com Brand Experience e Creative Copywriter em marcas como Itaú e QuintoAndar. Pai do Pudim, “ataca de DJ” nas horas vagas e adora ganhar discos de vinil de presente.