"Quem Me Viu, Quem Me Vê"

Ano: 2019
Selo: Independente
Gênero: Rock, Pop Rock
Para quem gosta de: Bárbara Eugênia e Otto
Ouça: Não Procurava Ninguém e Nunca Mais
Nota: 8.5

Crítica | Pélico: “Quem Me Viu, Quem Me Vê”

Ouvir as canções de Quem Me Viu, Quem Me Vê (2019, Independente) é como entrar em um território onde você sabe exatamente o que irá encontrar e, ainda assim, ser surpreendido. Quarto e mais recente álbum de estúdio do cantor e compositor Pélico, o registro que conta com produção assinada por Dudinha e Régis Damasceno, segue exatamente de onde o músico paulistano parou há quatro anos, durante o lançamento do confessional Euforia (2015). São canções embriagadas pela melancolia, relacionamentos fracassados e a constante tentativa do eu lírico em encontrar um novo amor. Um delicado exercício criativo que conduz a experiência do ouvinte até a derradeira Amanheci.

Pra começar, eu vou dizer / Aqui é o nosso acerto de contas / Sem a menor esperança / Do tempo curar a doce ilusão / Das coisas que vão se resolver“, canta em tom raivoso, logo na inaugural Acerto de Contas, canção que indica a trilha sentimental seguida pelo artista durante toda a execução do trabalho. São versos que alternam entre a dor e a libertação, o desejo e angústia, como uma extensão segura do material entregue pelo artista durante o lançamento de sua maior obra, o doloroso Que Isso Fique Entre Nós (2011).

Perfeita representação dessa poesia agridoce que abastece o disco pode ser percebida na sensível Nosso Amor. “Nós fomos tudo o que pudemos ser / Isso ninguém vai nos tirar / Amores sempre sonham em ser pra sempre / Mas sempre há de pintar / Um novo amor“, reflete com uma sobriedade rara. Instantes de pura confissão romântica, cuidado também explícito na canção seguinte, Não Procurava Ninguém. “Amanheceu eu fazendo planos / Do que seria o mais provável engano / Mas a vida é / A vida pode ser e é boa … Sinceramente, não procurava ninguém / Sinceramente, não procurava e achei“, confessa.

É partindo justamente dessa dualidade, alternando entre momentos de forte romantismo e doce melancolia, que Pélico movimento o disco. Canções em que o músico paulistano se entrega sentimentalmente, como na direta Louco Por Você (“E desde então o meu coração / Bate pra poder dizer / Louco por você“), ou mesmo versos consumidos pela dor, marca da sensível Nunca Mais, canção em que discute o amor em tempos de redes sociais (“Certas coisas não mudam / São como são / E não vem dizer que não /Que na vida real um nunca mais / Dói muito mais“).

Mesmo a base instrumental do disco segue uma estrutura irregular, pontuada por instantes de fúria e maior calmaria. Exemplo disso está na dobradinha composta por Machucado e Descaradamente. São pouco menos de oito minutos em que Pélico e seus parceiros de banda, vão da psicodelia brega ao punk árido da canção completa pela presença de Negro Léo. Um colorido cardápio de ideias que se distancia da base contida detalhada no disco anterior, indicativo da força criativa do artista e seus parceiros de estúdio, André Lima, Clayton Martin e os já citados Dudinha e Régis Damasceno.

Completo pela presença do músico Teago Oliveira (Maglore), em Pra Te Dizer e na delicada faixa-título do disco, Quem Me Viu, Quem Me Vê mostra Pélico em sua melhor forma. Trata-se de uma obra concisa, como se o músico paulistano encontrasse um delicado ponto de equilíbrio entre a dor explícita nos versos de Que Isso Fique Entre Nós e a leveza detalhada em Euforia. Canções que passeiam por todas as fases de um relacionamento, partindo da descoberta do amor ao término e necessidade de seguir em frente, proposta que naturalmente faz do presente álbum uma obra que exige ser revisitada.



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