"Phenomena"

Ano: 2019
Selo: PWR Records
Gênero: Experimental, Rock Psicodélico, Pós-Rock
Para quem gosta de: Mahmed e Macaco Bong
Ouça: Act I e Act II
Nota: 8.2

Crítica | “Phenomena”, Ema Stoned

Phenomena (2019, PWR) é um verdadeiro delírio. Primeiro álbum de estúdio do Ema Stoned desde a estreia com o bem-sucedida Gema (2013), o trabalho concebido em meio a pequenos improvisos mostra a forte conexão e evidente refinamento criativo entre banda paulistana — hoje formada por Alessandra Duarte (guitarra), Elke Lamers (baixo), Jéssica Fulganio (bateria, percussão e voz) —, e seus convidados, o músico Makoto Kawabata (guitarra e sintetizadores), um dos principais articuladores do grupo japonês Acid Mothers Temple, e Douglas Leal (guitarra, percussão e voz), grande responsável pelo Yantra.

Lento e extenso, são seis composições que se espalham em um intervalo de mais de 70 minutos de duração, o registro que conta com produção assinada pela própria Fulganio parece crescer em uma medida própria de tempo, sem pressa. São camada instrumentais, batidas densas, ruídos e ambientações atmosféricas que ora apontam para a lisergia cósmica dos anos 1970, ora esbarram no rock alternativo da década de 1990. Uma rica sobreposição de ideias e texturas que amplifica tudo aquilo que o grupo havia testado no registro ao vivo Live From Aurora (2016).

Fina representação desse permanente comprometimento estético e esforço do quinteto em se reinventar dentro de estúdio ecoa com naturalidade nos quase 30 minutos da extensa Act II. Entre guitarras carregadas de efeito, camadas atmosféricas parecem apontar para o som delirante de nomes como Can e Pink Floyd, revelando delicadas paisagens instrumentais que se fragmentam em pequenos blocos. A cada movimento orquestrado pela bateria de Fulganio, um novo território criativo, estrutura que vem sendo aprimorada pela banda desde a estreia com Gema.

Logo nos primeiros minutos do disco, na inaugural Act I, um verdadeiro conjunto de pequenos detalhes. São ondulações sensíveis, mas que rapidamente desembocam em um oceano de experiências turbulentas, como se o grupo testasse a própria identidade criativa. Do uso da voz como instrumento, passando pela esquizofrênica interferência de um apito nos instantes finais da canção, tudo se revela de forma completamente imprevisível, torta. Em Act III, o mesmo direcionamento, porém, partindo de uma interpretação completamente abstrata, estrutura que ganha ainda mais destaque em Act IV, com suas camadas de ruídos e curvas inesperadas.

Interessante perceber o direcionamento progressivo dado ao ritmo da obra. Enquanto os inaugurais Act I e Act II se espalham de forma lenta e atmosférica, perceba como músicas como Act V e Act VI ganham novo fôlego, mudando de direção a todo instante. O mesmo esmero ainda se faz evidente na composição dos arranjos e temas instrumentais, a diferença está na forma como o grupo parece flutuar em meio a guitarras parcialmente aceleradas, como um regresso temporário ao material entregue no primeiro álbum de estúdio da banda.

Com base nessa estrutura, o grupo paulistano a dupla de convidados revelam ao público uma obra tão contemplativa quanto essencialmente dinâmica, capaz de seduzir o ouvinte logo em uma primeira audição. Parte desse conceito já havia sido explorado pelo trio durante o lançamento da inédita Próxima B, em meados de 2017. São variações instrumentais, camadas e curvas rítmicas que flutuam em meio a arranjos etéreos, mas que a todo instante encontram um ponto de equilíbrio, indicativo do completo amadurecimento e permanente senso de reinvento dos integrantes do Ema Stoned.