"Punisher"

Ano: 2020
Selo: Dead Oceans
Gênero: Indie Rock, Folk Rock
Para quem gosta de: Lucy Dacus e Julien Baker
Ouça: I Know The End e Garden Song
Nota: 8.5

Crítica | Phoebe Bridgers: “Punisher”

Phoebe Bridgers sempre foi uma especialista em narrar boas histórias. Da estreia com Stranger in the Alps (2017), passando pelos colaborativos boygenius EP (2018), encontro com as amigas Julien Baker e Lucy Dacus, e Better Oblivion Community Center (2019), parceria com Conor Orbest, sobrevive na poesia descritiva, conflitos sentimentais e desilusões amorosas o estímulo para grande parte das canções assinadas pela cantora e compositora norte-americana. Registros que partem de emoções, medos e vivências reais, como uma coletânea de contos musicados, proposta que ganha ainda mais destaque no segundo e mais recente álbum de estúdio da musicista californiana, o confessional Punisher (2020, Dead Oceans).

Cuidadosamente trabalhado em estúdio, o álbum que conta com co-produção de Tony Berg (Andrew Bird, Beck), Ethan Gruska (Perfume Genius, John Legend) e da própria cantora, amplia de forma significativa tudo aquilo que Bridgers havia testado no disco anterior. Canções marcadas pelo refinamento acústico, orquestrações sempre detalhistas e incontáveis camadas instrumentais. De fato, é necessário tempo até absorver todos os elementos, ambientações e vozes que correm ao fundo da obra. Um lento desvendar de ideias e experiências sentimentais que parece dançar na cabeça do ouvinte, como uma valsa lenta, sem pressa.

Não por acaso, Bridgers decidiu se cercar de velhos colaboradores dentro de estúdio. São nomes como o multi-instrumentista, amigo e parceiro de longa data, Christian Lee Hutson; as integrantes do Boygenius, Baker e Dacus; o sempre prolífico Blake Mills, artista que, nos últimos meses, colaborou com nomes como Perfume Genius e Bob Dylan; as vozes de Orbest e instrumentos de sopro de Nathaniel Walcott, do Bright Eyes, além, claro, de uma variedade de interferências pontuais, como as guitarras de Nick Zinner (Yeah Yeah Yeahs), vozes de apoio da cantora e compositora Tomberlin, e orquestrações de Rob Moose (Bon Iver, Sufjan Stevens).

O resultado desse intenso processo criativo está na entrega de um repertório que parte de uma ambientação diminuta, avança em uma medida própria de tempo e acaba adotando contornos grandiosos. Exemplo disso está na confessional ICU, composição marcada pelo uso de orquestrações contidas, ruídos e melodias atmosféricas, mas ganha ainda mais destaque à medida em que a voz de Bridgers detalha os próprios sentimentos. “Eu costumava te iluminar / Agora eu não posso nem fazer você tocar bateria / Porque eu não sei o que eu quero / Até eu estragar tudo … Mas sinto algo quando vejo você agora / Eu sinto algo“, confessa.

Mesmo a disposição das faixas dentro do disco parece seguir essa estrutura progressiva. Instantes em que Bridgers e seus parceiros de estúdio alternam entre composições minimalistas, como Garden Song, para mergulhar em criações enérgicas, caso de Kyoto. Partindo dessa estrutura, todos os esforços do álbum parecem pensados para convergir na derradeira I Know The End. Enquanto os versos da canção refletem sobre a necessidade da partida (“Sempre te afastando de mim / Mas você volta com gravidade … Então eu tenho que ir / Eu sei, eu sei“), musicalmente o registro ganha forma em meio a guitarras carregadas de efeitos, batidas, vozes berradas e metais. Um verdadeiro turbilhão sentimental, como um acumulo de tudo aquilo que a cantora apresenta desde os primeiros minutos do trabalho.

Marcado pela força dos sentimentos e profunda entrega da artista dentro de estúdio, Punisher utiliza do peso da memória, vulnerabilidade e questões existencialistas como estímulo para um dos trabalhos mais sensíveis dos últimos meses. Em um ano marcado por preciosidades como Fetch the Bolt Cutters (2020), de Fiona Apple, e Set My Heart on Fire Immediately (2020), de Perfume Genius, Bridgers não apenas deixa sua marca, como entrega ao público uma obra que amplia de forma significativa tudo aquilo que tem sido produzido desde a estreia com Stranger in the Alps. Um misto de dor, refúgio e permanente busca por libertação.