"Um Delírio Madrepérola"

Ano: 2021
Selo: Independente
Gênero: Indie, Folk, MPB
Para quem gosta de: Tim Bernardes e Castello Branco
Ouça: Lençóis de Algodão e Leito de Migalhas
Nota: 8.5

Crítica | Píncaro: “Um Delírio Madrepérola”

Um Delírio Madrepérola (2021, Independente) é um disco sobre memória. Classificações momentâneas que surgem em meio a formas abstratas, como um olhar curioso do cantor e compositor Roger Valença, o Píncaro, em relação ao próprio passado. Não por acaso, o ex-integrante da banda Onagra Claudique, com quem lançou o delicado Lira Auriverde (2014), fez de Lençóis de Algodão a primeira composição do álbum a ser apresentada ao público. “Eu cresci com medo / Raiva entre os dedos / Lençóis de algodão / Dentes de leão / Segredos“, canta em tom nostálgico, conceito que embala a experiência do ouvinte até a música de encerramento do trabalho, Carne Mármore.

São fragmentos da infância, relacionamentos conturbados e sentimentos que se projetam com uma naturalidade única, conceito bastante evidente em algumas das principais composições de Lira Auriverde, mas que parecem melhor formuladas no presente disco. E isso se reflete com naturalidade na própria Madrepérola. Entre versos econômicos, sempre calculados, Valença constrói cenários, cenas e acontecimentos de forma sensível, transportando o ouvinte para dentro da obra. “As joias da família tem um brilho / Madrepérola / Glória e orgulho / Montes de entulho / Calcário espalhado no quintal“, canta em meio a arranjos que avançam lentamente, como um complemento aos versos.

Claro que a jornada particular de Valença em nenhum momento exclui o ouvinte desse processo. E isso pode ser percebido logo nos primeiros minutos da obra, em Leito de Migalhas. Enquanto o violão cresce aos poucos, sem pressa, retalhos poéticos evidenciam a busca por reconciliação de um casal. “Se você puder me perdoar / São milhares minhas dores … Eu vi você chorar / ‘Quanto falta ou quando vai passar?’”, canta. Mais à frente, em A Fome de Saturno, são demônios interiores e pequenas angústias que se manifestam, revelando uma das letras mais impactantes do trabalho. “Um vulto aguarda esquecido / Nos cantos da casa / Diz que não culpa / Mas todo homem tem“, reflete.

Parte desse resultado vem da forma com Valença utiliza do reducionismo dos arranjos para alavancar os próprios sentimentos. São ambientações discretas, texturas e sintetizadores ocasionais que garantem maior profundidade ao trabalho. Difícil não lembrar de Bon Iver nas incontáveis camadas da já citada A Fome de Saturno, canção que revela um universo de pequenos detalhes a cada novo movimento. A própria Leito de Migalhas, logo na abertura do disco, parte de uma captação de campo como delicado componente criativo, servindo de base para o restante da faixa. Surgem ainda preciosidade como Naderda e Lúcia, dois respiros instrumentais que refletem a maior interação entre o músico e o produtor do álbum, o multi-instrumentista Mauro Motoki (Ludov), colaborador desde os tempos da Onagra Claudique.

Contudo, na mesma medida em que garante forma e consistência ao disco, a excessiva leveza que rege o trabalho talvez custe a impressionar o ouvinte mais apressado. Longe de respostas rápidas, Um Delírio Madrepérola é um registro que exige tempo até ser absorvido por completo. São incontáveis camadas instrumentais, ruídos e vozes etéreas que se revelam ao público em uma medida particular de tempo. A própria imagem de capa do álbum, uma criação de Mariana Poppovic, representa com naturalidade parte desse conceito misterioso que serve de sustento à obra, como a passagem para um território que parece desvendado em essência por Valença.

Feito para ser absorvido aos poucos, Um Delírio Madrepérola é o típico caso de uma obra que parece maior e mais interessante a cada nova audição. Instantes em que o músico passeia em meio a sentimentos, lembranças e inquietações de forma sempre sensível, estímulo para a criação de músicas como as empoeiradas Lençóis de Algodão e Madrepérola, mas que em nenhum momento deixa de olhar para o presente, como na poesia política de O Guarani. Canções que partem de experiências pessoais vividas por Valença, porém, utilizam de temas universais como forma de dialogar com o ouvinte, conceito que se reflete com naturalidade durante toda a execução da obra.

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