"Punk"

Ano: 2019
Selo: Otemoyan / Burger / Heavenly
Gênero: Pop Rock, Indie Rock
Para quem gosta de: Grimes e Cansei de Ser Sexy
Ouça: I'm Me e Wintime
Nota: 8.0

Crítica | “Punk”, CHAI

Você não precisa ter tido qualquer tipo de contato prévio ou informação complementar para se deixar guiar pelas canções de Punk (2019, Otemoyan / Burger / Heavenly). Segundo e mais recente álbum de estúdio do quarteto japonês CHAI — grupo formado por Mana, Kana, Yuki e Yuna —, o registro de essência caótica encontra na criativa colagem de referências, arranjos e melodias tortas a base para a composição de um trabalho que parece maior a cada audição. Um misto de delírio e evidente refinamento estético quando voltamos os ouvidos para o primeiro disco da banda, o também enérgico Pink (2017).

Influenciado de maneira confessa pela obra de grupos como Gorillaz, CHVRCHES e até mesmo pelas brasileiras do Cansei de Ser Sexy, Punk, assim como o registro que o antecede, parece dosar entre a estranheza das formas instrumentais e o uso de faixas minimamente acessíveis. Desse primeiro grupo, surgem músicas como Great Job, um punk empoeirado que parece apontar para a obra de veteranos como X-Ray Spex e demais representantes do pós-punk inglês dos anos 1980.

A principal diferença em relação a tantos outros álbuns ancorados nesse mesmo universo temático está na forma como o quarteto aponta para o passado, porém, partindo sempre de uma interpretação atualizada desse material. São sintetizadores, samples e colagens eletrônicas que distanciam o som produzido pela banda de um trabalho puramente nostálgico. A própria Fashionista, sexta faixa do disco, evidencia com naturalidade essa transformação, costurando passado e presente em uma estrutura própria do grupo japonês.

No segundo bloco de canções, o claro desejo do quarteto em dialogar com uma parcela maior do público. Exemplo disso está em I’m Me, terceira faixa do disco. Enquanto os versos mostram a leveza radiante da obra — “Toda garota é especial / Todo garoto é especial” —, fugindo da euforia imposta logo nos primeiros minutos de Choose Go!, musicalmente a canção avança, transportando o som produzido pelo quarteto para um novo ambiente conceitual. É como se a banda resgatasse parte das harmonias, arranjos e sonoridade colorida de diferentes nomes do indie pop europeu.

Em Wintime, quarta faixa do disco, o mesmo refinamento na composição dos arranjos e versos. Difícil não lembrar do trabalho de Grimes nos instantes finais de Art Angels (2015), efeito direto do uso de melodias doces e inserções eletrônicas. A mesma leveza volta a se repetir em Curly Adventure, composição adornada pelo uso de vozes em coro e sintetizadores atmosféricos, como um complemento direto à arquitetura simples da canção. Uma fuga declarada de possíveis excessos, conceito que volta a se repetir em faixas como Feel the Beat e, principalmente, a derradeira Future, música que mais se distancia do restante da obra.

Conceitualmente amplo quando próximo do trabalho que o antecede, Punk preserva a essência anárquica que vem sendo explorada pela banda desde o primeiro álbum de inéditas, porém, se permite provar de novas sonoridades, ritmos e fórmulas instrumentais. É como se o quarteto encontrasse um ponto de equilíbrio dentro da própria estranheza, fugindo a todo instantes de uma sonoridade convencional, porém, sustentando no uso de versos cíclicos e arranjos aprazíveis a base para um registro que rapidamente captura a atenção do público.