"Antropocósmico"

Ano: 2020
Selo: Independente
Gênero: Experimental, Jazz, Eletrônica
Para quem gosta de: Guizado, Curumin e Bixiga 70
Ouça: Vila Vento, Manhã e Rhythm Ghambit
Nota: 8.0

Crítica | Pipo Pegoraro: “Antropocósmico”

Em mais de duas décadas de carreira, não foram poucos os caminhos percorridos por Pipo Pegoraro. Da estreia tímida, com Intro (2008), passando pelo colorido tropical de Taxi Imã (2011), ao território litorâneo de Mergulhar, Mergulhei (2014), sobram instantes em que o cantor, compositor e produtor paulistano parece jogar com as possibilidades dentro de estúdio. Um colorido catálogo de ideias que se reflete para além dos domínios da própria obra, vide a sequência de álbuns como integrante do coletivo Aláfia, além, claro, de encontros esporádicos com diferentes representantes da nossa música, caso da parceira de banda Xênia França e a cantora Serena Assumpção.

Em Antropocósmico (2020, Independente), quarto e mais recente álbum de estúdio do multi-instrumentista paulistano, um delicado conjunto de canções que se revelam como uma soma de todas essas experiências. Livre da voz, Pegoraro entrega ao público um repertório que transita por entre décadas de forma sempre curiosa, confessando algumas de suas principais referências criativas. Composições que vão do jazz-funk dos anos 1970 (Tranquilitati Animi) ao uso de sonoridades abrasivas (Montanha) de forma sempre particular, conceito que se reflete até o último instante da obra.

A principal diferença em relação ao presente álbum está no forte aspecto cósmico/futurístico adotado pelo artista para a composição dos arranjos. Inspirado pelo livro Ética da Solidariedade Antropocósmica, de Olinto Pegoraro, filósofo e tio do compositor que faleceu no último ano, o registro de dez faixas parece pensado para além dos limites terrenos, mergulhando na formação de uma sonoridade interplanetária, como se cada faixa do disco servisse de passagem para um novo universo criativo. Canções que costuram passado, presente e futuro de maneira incerta, jogando com a experiência do público.

Exemplo disso está inusitada sobreposição de ideias que toma conta de Rythm Ghambit, terceira faixa do disco. São pouco mais de seis minutos em que Pegoraro e seus parceiros de estúdio, Beto Montag (vibrafone) e Ricardo Braga (percussão) vão do samba ao city pop, do hip-hop ao jazz em uma linguagem deliciosamente inusitada. Mesmo o uso da voz, trabalhada de forma contida, se revela ao público de forma instrumental, como um complemento à chuva de sintetizadores e ruídos eletrônicos que cobre toda a superfície da canção, forçando uma audição atenta por parte do ouvinte, convidado a desvendar todas as nuances da obra.

A mesma minúcia na composição dos arranjos se reflete principalmente nos momentos em que Pegoraro melhor se relaciona com a música eletrônica. É o caso de Simpatia Universal, canção que encanta pelo uso atmosférico dos sintetizadores, batidas e incontáveis camadas instrumentais, sonoridade que naturalmente aponta para o trabalho de estrangeiros como Flying Lotus e demais interessados em explorar a mesma temática. Mais à frente, em Manhã, faixa de encerramento do disco, frações sintéticas que se revelam ao público em pequenas doses, como se o músico paulistano brincasse com os detalhes.

Misto de sequência e fina continuação de tudo aquilo que Pegoraro tem produzido desde o início da carreira, Antropocósmico mostra o esforço do multi-instrumentista paulistano e seus parceiros em se reinventar dentro de estúdio. Do momento em que tem início, na introdutória Três Esferas, até alcançar a faixa de encerramento do disco, cada composição do trabalho parece dançar pelo tempo, colidindo diferentes fórmulas instrumentais, ideias e conceitos de forma propositadamente irregular, estrutura que faz do presente álbum um registro diferente a cada nova audição.



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