"Ricky Music"

Ano: 2020
Selo: Domino
Gênero: Indie Pop, Synthpop, Pop Rock
Para quem gosta de: Blood Orange e (Sandy) Alex G
Ouça: Patience e Do U Wanna
Nota: 6.0

Crítica | Porches: “Ricky Music”

Desde o início da carreira, Aaron Maine tem feito do Porches um criativo resgate de tendências e melodias empoeiradas, como um curioso olhar para o pop dos anos 1980. Prova disso está em toda a sequência de obras entregues pelo cantor e compositor norte-americano ao longo da última década. São registros como o introdutório Slow Dance in the Cosmos (2013), ou a busca por novas possibilidades, marca do sucessor Pool (2016), que fizeram do artista estadunidense um dos mais interessantes do período, estrutura que se reflete até o álbum seguinte, o bom The House (2018).

É partindo justamente desse mesmo universo criativo que Maine entrega ao público o quarto e mais recente álbum de estúdio como Porches, Ricky Music (2020, Domino). Livre de possíveis transformações, o músico norte-americano, mais uma vez, convida o ouvinte a se perder em meio a camadas de sintetizadores, ruídos atmosféricos e ambientações sempre contidas, como uma extensão natural do pop minimalista que havia testado no disco anterior.

Exemplo disso está nas três faixas que marcam a sequência de abertura do disco, Patience, Do U Wanna e Lipstick Song. São pouco mais de oito minutos em que o músico vai do pop empoeirado de Prince ao R&B de contemporâneos como Frank Ocean e Blood Orange, esse último, parceiro de longa data do artista e colaborador na derradeira Rangerover. “Pensei em quando nos conhecemos / Pensei em você e seus amigos / Pensei no apartamento / Pensei do kit de maquiagem / E quando você chegou“, confessa, indicando parte do romantismo saudosista que orienta a experiência do ouvinte até o último instante da obra.

Dos poucos momentos em que perverte essa estrutura, Maine entrega ao público algumas das melhores composições do álbum. É o caso de Madonna, sexta faixa do disco. São pouco mais de três minutos em que o artista nova-iorquino prova de uma estrutura dançante, como um convite a se perder pelas pistas de dança. Instantes que o músico desvia do som produzido nos anos 1980 e parte em direção à década seguinte, conceito que acaba se refletindo na faixa seguinte, I Can’t Even Think, criação que flerta com o trip-hop e R&B em uma linguagem deliciosamente estranha.

O problema é que para cada nova composição que perverte a essência nostálgica do Porches, existem outras duas ou mais faixas que indicam a evidente repetição de Maine. Canções como Hair, Fuck_3 e Wrote Same Songs que pouco avançam em relação aos antigos trabalhos da banda norte-americano, tornando a experiência do ouvinte arrastada. Da construção das batidas, ao uso melancólico das vozes e temas instrumentais, tudo soa como uma interpretação previsível do material que tem sido entregue pelo artista desde a estreia com Slow Dance in the Cosmos.

Curioso pensar que Ricky Music seja justamente o primeiro álbum do Porches que se abre para a interferência de outro produtor, o multi-instrumentista Jacob Portrait (Unknown Mortal Orchestra, Wild Nothing). É como se Maine encontrasse no suporte do colaborador um estímulo para natural mergulhar de cabeça na própria zona de conforto, estrutura que deve agradar aos antigos seguidores da banda, vide o material entregue em algumas das principais faixas do disco, como Do U Wanna e Rangerover, mas que em nenhum momento parece capaz de surpreender e instigar o público.



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