"Pratagy"

Ano: 2019
Selo: Independente
Gênero: Pop, R&B, Synthpop
Para quem gosta de: Mahmundi, Silva e Luê
Ouça: Fica e Restos do Amor
Nota: 7.5

Crítica | Pratagy: “Pratagy”

Leonardo Pratagy sempre encarou a música pop de forma particular. São ambientações minimalistas, como no curto repertório do bilíngue Pictures (2016), melodias tropicais e flertes com o brega, no colorido Búfalo (2017), ou mesmo a tentativa do cantor e compositor paraense em dialogar com a produção soturna dos anos 1980, estímulo para o material detalhado em Voo e Mansidão (2018), trabalho que conta com faixas assinadas em parceria com o conterrâneo Arthur Nogueira. Um bem resolvido catálogo de ideias que transita por entre décadas e gêneros conceitualmente distintos, indicativo da completa versatilidade do artista dentro de estúdio.

Interessante perceber no terceiro e mais recente álbum de estúdio do músico paraense um delicado acumulo de todas essas experiências. Com produção assinada próprio artista, o registro de oito faixas preserva a essência dos antigos trabalhos de Pratagy, porém, se articula de forma ainda mais detalhista, revelando ao público incontáveis camadas instrumentais, melodias e vozes a serem desvendadas pelo ouvinte. Composições que vão do R&B de Solange ao pop empoeirado de nomes como Porches e Blood Orange, cuidado que se reflete até a faixa de encerramento do disco, Eu Posso Mudar.

Não por acaso, Pratagy escolheu Dias de Verão como faixa de abertura do disco. Da percussão destacada de Douglas Dias, passando pela textura dos sintetizadores e temas eletrônicos, cada fragmento da canção parece apontar para uma direção diferente. São ambientações tropicais que encolhem e crescem a todo instante, arranjos de cordas e vozes complementares que passeiam por entre as brechas da canção. Uma riqueza de detalhes que também se repete mais à frente, na melancólica Restos do Amor, composição que aponta para o pop dos anos 1990 e se abre para a interferência do cantor e compositor cearense Arquelano.

Nada que se compare ao material entregue em Fica, segunda faixa do disco. Da composição dos arranjos ao uso complementar das vozes, tudo parece pensado de forma a alavancar os versos lançados por Pratagy. “Eu vivo nessa / Preso nesse sentimento / Baby, ainda tô tentando / Me soltar de você“, confessa, lembrando os instantes de maior entrega sentimental de nomes como Mahmundi e outros personagens recentes do pop brasileiro. O mesmo refinamento poético acaba se refletindo em Amor Fou, canção que alterna entre o desejo e o medo de se entregar a um novo amor. “Quando dei por mim / Te pus num altar / Meu mundo você fez girar / Desde o dia em que te conheci“, canta.

Mesmo pontuado por instantes de evidente acerto, não há como ignorar a forma retraída como Pratagy confessa os próprios sentimentos em diversos momentos no decorrer da obra. São vozes trêmulas, exageradamente contidas, como um retrocesso em relação à euforia de faixas como Búfalo e Pensando em Você Demais. Isso fica ainda mais evidente no encontro do músico com a cantora e compositora Emischramm, em Instant Grude, canção que vai do pop futurístico ao R&B em um delicado jogo de emoções, porém, sempre de forma calculada, como se o artista paraense jamais ultrapassasse um limite imaginário.

Entretanto, uma vez seduzido pelo lirismo confessional que rege o disco, difícil não se deixar guiar pelas experiências sentimentais compartilhadas por Pratagy. São versos tratados de forma sempre sensível, direcionamento que tem sido aprimorado pelo músico desde o lançamento de Búfalo. É como se o músico transitasse por diferentes fases de um relacionamento, indo da incerteza que move os primeiros encontros, como na inaugural Dias de Verão, à melancolia do término, base para a já citada Restos do Amor. Um misto de celebração e dor, proposta que torna a experiência de revisitar o trabalho sempre gratificante.



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