"PROTO"

Ano: 2019
Selo: 4AD
Gênero: Experimental, Eletrônica
Para quem gosta de: Oneohtrix Point Never, Björk e Jlin
Ouça: Eternal e Frontier
Nota: 8.0

Crítica | “PROTO”, Holly Herndon

O uso da voz como instrumento está longe de parecer uma novidade no campo dos artes. Das harmonias incorporadas pelo The Beach Boys ainda na década de 1960, vide o clássico Pet Sounds (1966), passando pelo completo experimentalismo de nomes como Mike Patton, em Adult Themes for Voice (1996), ao refinamento melódico de Björk, em Medúlla (2004), não foram poucos os artistas que estabeleceram nesse direcionamento específico um evidente ponto de ruptura e transformação estética. Entretanto, mesmo dentro desse território há muito explorado, curioso perceber em PROTO (2019, 4AD), novo álbum de Holly Herndon, um fino toque de renovação.

De essência experimental, como tudo aquilo que a cantora e compositora norte-americana vem produzindo desde o início da carreira, o trabalho concebido com o auxílio de uma inteligência artificial utiliza da voz como o princípio de um criativo processo de transformação estética. Concebido em parceria com Mat Dryhurst, Spawn, como foi batizada a IA, interpreta e emula de forma particular uma série de exercícios vocais assinados em parceria com integrantes vindos de de diferentes corais e campos da música.

Trata-se de uma tentativa clara de Herndon em estreitar a relação entre humanos e maquinas de forma sensível e poética, estrutura detalhada logo nos primeiros minutos do trabalho, com o nascimento de Spawn, em Birth, mas que segue até o último suspiro da inteligência artificial, na derradeira Last Gasp. Não por acaso, a musicista decidiu incluir trechos de estudos em que IA tem contato direto com outros musicistas, entendendo a melhor forma de replicar o uso da voz, vide o material entregue nas curtinhas Canaan e Evening Shades.

Claro que essa busca por uma obra puramente conceitual não distancia o ouvinte de faixas minimamente acessíveis. Diferente do material entregue em Movement (2012), obra em que decidiu transformar o próprio corpo no principal instrumento do trabalho, Herndon segue a trilha das canções do antecessor Platform (2015), criando pequenas brechas criativas que dialogam de forma imediata com o público. São melodias e vozes sobrepostas, captações tratadas de forma percussiva e um fino detalhamento melódico que faz lembrar o trabalho de artistas como Fever Ray.

Exemplo disso está na crescente Eternal. São pouco menos de cinco minutos em que Herndon parte da criativa colagem de vozes e batidas eletrônicas para mergulhar em um território puramente dançante, como remix torto do material entregue em Platform. Em Frontier, sétima composição do disco, um coro de vozes tribais sutilmente conduz o trabalho em direção a uma estrutura ritualística, conceito que ecoa de maneira sutil durante toda a execução da obra. Nas abstrações de Godmother, encontro com a norte-americana Jlin, variações instrumentais que partem de uma linguagem torta para capturar a atenção do ouvinte.

Completo pela série de vídeos e estranha identidade visual concebida especialmente para a divulgação do trabalho, PROTO reflete a capacidade de Holly Herndon em se reinventar criativamente mesmo dentro de um território que há tempos desbravado por diferentes artistas. Instantes de pura contemplação (Crawler), delírios transformados em música (Fear, Uncertainty, Doubt) e faixas que estreitam a relação da artista com o próprio ouvinte de um jeito torto (Alienation). Um misto de desconstrução e sequência de tudo aquilo que vem sendo apresentado desde a estreia das cantora com Movement.



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