"Pure X"

Ano: 2020
Selo: Fire Talk
Gênero: Rock, Dream Pop
Para quem gosta de: DIIV, No Age e Dirty Beaches
Ouça: Fantasy e Hollywood
Nota: 7.8

Crítica | Pure X: “Pure X”

Mesmo que seja possível relacionar o som produzido pelo Pure X com a obra de outros nomes importantes que surgiram no início da década passada, o grupo de Austin, Texas, sempre pareceu seguir uma trilha isolada. E isso se reflete em cada um dos registros assinados pelos músicos Nate Grace, Jesse Jenkins V, Austin Youngblood e Matty Tommy Davidson ao longo dos anos. Trabalhos como Pleasure (2011), Crawling Up the Stairs (2013) e Angel (2014) que vão do rock dos anos 1980 à lisergia que embala o início da década de 1990, proposta que assume maior refinamento no quarto e mais recente registro de inéditas da banda.

Autointitulado, o registro que conta com co-produção de Danny Reisch (Low, Sharon Van Etten), mostra um grupo em pleno domínio da própria obra. Do momento em que tem início, nas guitarras sujas de Middle America, até alcançar a melancólica I Can Dream, cada composição do disco parece servir de base para a faixa seguinte. São texturas atmosféricas, ruídos e batidas lentas que se entrelaçam de forma sempre sensível, como se cada composição do disco fosse trabalhada em uma medida própria de tempo.

É justamente essa ausência de pressa que fez com que o quarteto levasse quase meia década para a finalização do trabalho. Da construção dos arranjos à formação dos versos, perceba como cada elemento do disco se revela ao público de forma sutil, ocupando toda e qualquer brecha do álbum. São músicas como Making History e How Good Does It Get em que guitarras cristalinas passeiam de forma quase labiríntica, conduzindo o ouvinte para dentro de um território misterioso. Um delirante exercício criativo que preserva parte do som atmosférico explorado desde a estreia com Pleasure (2011), porém, partindo de um novo direcionamento.

Outro elemento que se destaca ao longo do registro são as vozes de Nate Grace. Enquanto nos primeiros trabalhos da banda os versos detalhados pelo músico eram tratados de forma sempre atmosférica, como um complemento às ondulações das guitarras, com o presente álbum, todos os elementos se revelam ao público com maior nitidez. Exemplo disso está em Free My Heart, música que não apenas reflete a capacidade do Pure X em dialogar com uma parcela maior do público, como lembra as canções de contemporâneos como Real Estate e DIIV, conceito reforçado pelo uso das guitarras e melodias psicodélicas.

Entretanto, mesmo marcado pelo evidente refinamento no processo de composição da obra, sobrevive nos momentos de maior turbulência e instabilidade a passagem para o lado mais interessante do álbum. É o caso de Fantasy, faixa que evoca as guitarra e vozes submersas de veteranos como Galaxie 500, conceito também reforçado na introdutória Middle America. Um misto de passado e presente que resgata uma série de elementos originalmente testados nos primeiros registros autorais da banda texana, porém, partindo de um novo envelopamento estético.

Propositado ou não, são essas mesmas variações de ritmos e desequilíbrios que tornam a experiência de ouvir o disco tão satisfatória. Instantes em que o quarteto norte-americano se permite provar de novas possibilidades, ampliando os limites da própria obra, porém, preservando parte da composição ruidosa que marca os primeiros trabalhos de estúdio da carreira. Canções que parecem dançar pelo tempo e transitar por diferentes campos da música, mas que acabam sempre regressando ao mesmo ponto de partida, proposta que faz do presente álbum um novo e bem-sucedido capítulo na curta discografia do Pure X.