"Pureza e Perigo"

Ano: 2019
Selo: PWR Records / Geração Perdida
Gênero: Indie, Dream Pop, Eletrônica
Para quem gosta de: Papisa e Bruna Mendez
Ouça: Sou o Que Me Trai e Sua Pele
Nota: 7.7

Crítica | “Pureza e Perigo”, Não Não-Eu

Autossabotagem, o medo da vida adulta e o caos interno que bagunça a vida de qualquer indivíduo. Esses são alguns dos temas explorados pelos músicos Pâmilla Vilas Boas e Cláudio Valentin no segundo álbum de estúdio do Não Não-Eu, Pureza e Perigo (2019, PWR Records). Sequência ao homônimo e também melancólico registro de inéditas entregue há dois anos, o novo disco preserva a essência confessional do trabalho que o antecede, porém, sutilmente aponta para novas direções, estreitando a relação da dupla com as pistas e o uso de temas eletrônicos.

Exemplo disso está na melancolia fina de Sua Pele. “As paisagens que um dia eu apaguei / lembram e me fazem olhar para você … A nossa pele é o que não esquece / Os nossos olhos são o que não esquece / A nossa boca é o que não esquece / E o que ouvimos ressoa / Dentro de nós“, canta em meio a vozes atmosféricas, sintetizadores e batidas crescentes assinadas em parceria com conterrâneo mineiro Raul Costa, do Retrigger. Pouco mais de quatro minutos em que o ouvinte ultrapassa o aspecto sorumbático dos versos para mergulhar em um território puramente dançante, estrutura que vem sendo aprimorada pela dupla desde a série de remixes apresentada no último ano.

O mesmo esmero na composição dos elementos e busca por um material puramente acessível se faz evidente em Interlúdio, terceira faixa do disco. Em um intervalo de quase seis minutos, sintetizadores versáteis se entrelaçam em meio a versos picotados, ruídos eletrônicos e batidas tortas, sonoridade que parte da poesia crua de Vilas Boas para estimular a mente do ouvinte. “Por mais que eu tente falar / Você me faz invisível / Suas palavras gritam na minha cabeça / Mas eu vou acabar com tudo“, ameaça, preparando o terreno para a rica tapeçaria eletrônica que vai do pop sombrio da década de 1980 ao presente cenário.

Claro que a busca por novas possibilidades não distancia o ouvinte do mesmo reducionismo sensível explícito no primeiro álbum de estúdio da dupla. Prova disso está na inaugural Sou o Que Me Trai, composição que preserva a essência do trabalho entregue há dois anos, porém, se permite provar de novas sonoridades e vozes nada econômicas, estímulo para uma das letras mais tocantes já compostas por Vilas Boas. “Eu sou o que me trai / O que me dói / O que me torna tão ruim / Não sei por que / Fujo de mim“, canta em meio a versos consumidos pela autossabotagem e o permanente medo do eu lírico em errar.

Marcada pelo uso de texturas eletrônicas, guitarras e incontáveis camadas instrumentais, Desnascer é outra composição que encanta pela forma como cada elemento do disco assenta em uma medida própria de tempo. Um lento desvendar de ideias e experiências pessoais, estrutura que volta a se repetir na também dolorosa Outono, composição que se revela ao público em pequenas doses, cercando e confortando o ouvinte. Surge ainda a delicada Fragmentos, um misto de reflexão e diálogo da banda com o próprio público e parceiros, proposta que naturalmente reflete a tradicional cordialidade mineira, mas que assume nítidio distanciamento do restante da obra.

Naturalmente dividido entre instantes de maior aceleração e faixas marcadas pelo completo reducionismo dos arranjos e vozes, Pureza e Perigo, como o próprio título indica, encontra na dualidade dos elementos a base para grande parte do trabalho. Um misto de angústia e libertação, desejo de mudança e estabilidade criativo, indicativo de uma banda em pleno processo de amadurecimento e construção da própria identidade artística, proposta que orienta a experiência do ouvinte até o último instante da obra.



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